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Paranoid Park, 2007

Gus Van Sant continua tentando entender os jovens de agora através de seus silêncios.

Como pessoa que pensa e, logo, existe, pensei dia desses sobre a utilidade social do cinema ou a importância dessa ferramenta para além do entretenimento. A conclusão a qual cheguei pode ser senso comum e já ter sido escrita em diversos livros e ensaios, mas até aquele momento de minha vida foi a primeira vez que ela me surgiu, assim, tão claramente. As ciências humanas são inevitavelmente subjetivas pela própria constituição do objeto que pretende investigar e não há maneira de retirar-se um pedaço da epiderme social e analisá-la ao microscópio, há? Ok, mas o que isso tem a ver com Paranoid Park? Só mais um parágrafo e vocês irão entender.

O cinema consegue capturar pedaços da realidade – mesmo que seja uma realidade forjada, teatral – e sentar na sala escura e deixar-se absorver por aquelas imagens é como olhar partes do real através de um filtro menor,um microscópio talvez; é a chance de refletir a respeito daquele tema estando de fora daquela ação, mantendo assim um distanciamento sadio entre observador e observado. É claro, nem todo o cinema é assim, nem todos os filmes se propõem uma pergunta a ser respondida a partir da reflexão sobre sua história. Mas Paranoid Park também não é uma simples peça de entretenimento.

Colocados lado a lado, Elefante e Paranoid Park parecem pertencer a um mesmo universo temático: o que há de errado com a juventude norte-americana de agora? E nisso alguns filmes de Harmony Korine – como Kids e Gummo – podem ser catalogados com a mesma etiqueta. E pelo que consigo extrair desses quatro filmes, há vários motivos pra se preocupar, até porque há décadas essa mesma juventude dos EUA tem servido de modelo para todo jovem com acesso a televisão, internet e cinema.

Alex (Gabe Nevins) tem 16 anos e vive num subúrbio próximo a Nova Yorque. Seus pais estão em processo de separação e ele precisa demonstrar tranqüilidade quanto a isso, diferentemente de seu irmão de 13 anos que parece não estar suportando a situação. Ter uma linda namorada que é líder de torcida (Taylor Momsen) ao invés de ser o ponto positivo na vida dele, demonstra-se como mais um problema. Andar de skate é sua válvula de escape. Tanto dele como de muitos outros garotos e garotas. Alguns deles chegam a criar um pequeno e ilegal paraíso do skate, o Paranoid Park. Perto das linhas de trem, num espaço com tubos e armações de concreto abandonados, eles montam um espaço que pode ser bem entendido se levarmos em conta o conceito de TAZ – ou Zona Autônoma Temporária – criado por Hakim Bey: um lugar com propósito definido e com leis próprias. Leis essas que não estão catalogadas no código penal ou civil. Leis feitas e válidas apenas dentro dos limites do parque.

É preciso mais que habilidade para pertencer ao grupo dos freqüentadores assíduos do parque; é preciso uma atitude que beira o niilismo. E isso agrada Alex, que timidamente começa a dispensar programas com a namorada e até com o melhor amigo, Jared (Jake Miller), para tentar pertencer àquele lugar. E é nesse processo que se amarra o maior nó da trama.

Gus Van Sant pega um caminho pouco convencional para contar a história de Paranoid, pois além de embaralhar a linha temporal da trama colocando o começo no meio e mostrando no final aquilo que provavelmente ficaria por conta de nossa imaginação, ele quebra a lógica do suspense comum desvendando o grande mistério muito antes do fim. E põe a responsabilidade disso no personagem/narrador, que vai contando o que aconteceu da maneira que vai lembrando.

Ponto interessante também é como ‘ouvir’ a história sendo contada através de um narrador que pouco fala e que resolve escrever o que aconteceu, sendo que Van Sant não se utiliza daquela saída fácil de pôr a voz do narrador em off pra nos contar o que está sendo escrito. Alex escreve e nós nunca leremos sua carta e tampouco saberemos realmente o que se passou. O que temos são as imagens (material por excelência do cinema?). Nesse caso, o que as imagens sugerem são apenas uma parte do que aconteceu.

Algumas cenas chamam a atenção, como quando Alex vem andando na ponte e ouvimos as várias vozes que saem dele num momento de desespero e por alguns segundos ficamos confusos tentando entender com quem ele está falando ou quem está falando com ele. Os rolês de skate dentro e fora do parque embelezam-se pela utilização da câmera lenta ou pela idéia de terem sido gravadas por câmeras caseiras, com os garotos agindo tão naturalmente quanto possível. Legal também foi reconhecer num diálogo entre Alex e seu irmãozinho que eles conversam sobre cenas de Napoleon Dynamite, um filme que através da sátira critica o mesmo vazio da juventude norte-americana que Gus parece querer entender. Bom também é reconhecer a boa mão de Van Sant com sua inconfundível sensibilidade em dirigir uma película.

Paranoid Park se constitui como crítica de viés mais reflexivo e nem por isso se esquece da estética cinematográfica em detrimento do discurso. Une as duas questões de maneira competente.

Encerro por aqui a minha análise para não estragar a surpresa de assistir ao filme e reconhecer esses pontos que apontei, além de muitos outros que me escaparam. Uma estória que emociona porque parece tão próxima que é quase possível tocá-la. Ali na esquina. Na casa ao lado. Na escola do bairro. Na televisão, na internet e no cinema.

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