na periferia da cinelândia

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Ratatouille

“De certa forma o trabalho de um crítico é simples: nós arriscamos muito pouco, e ainda gozamos de uma posição de superioridade sobre aqueles que nos oferecem o seu trabalho para nosso julgamento. Nós vivemos das críticas negativas que são divertidas de escrever e ler. Mas a dura realidade que nós críticos devemos encarar é que na maioria dos casos, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que nossa critica, assim designada. Mas há vezes em que um crítico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa de amigos.”

Ontem à noite experimentei algo novo. E já que o novo precisa de amigos…

Sim, aquela animação do ratinho cozinheiro que os caras ali na Uruguaiana gritaram nos nossos ouvidos por meses: Ratatui! Ratatui! Eles queriam dizer: Leva! Leva! E eu não os ouvi. Mas depois de ver tanta gente dizer – inclusive o Malafatus, que é chatus humanis – que aquela era uma boa história… Bom, eu resolvi assistir.

Claro que simpatizar com Remy é coisa fácil, mas foi difícil também para mim enquanto ser humano social e ligada à convenções não achar asqueroso quando ele caia em cima de alguma travessa de comida. E esse deve ter sido o jogo dos roteiristas, porque pensar em comida, pra nós, causa uma sensação quase oposta a de se pensar em ratos.

Dividido entre sua natureza e seu amor pela cozinha, Remy vivia aquela vida dupla, quase se achando mais humano do que qualquer outra coisa, através da confusa relação com Linguini – o garoto do lixo que só queria manter seu emprego – a quem cabia ao ratinho manipular como uma marionete, sendo isso necessário e não imposto.

A trama se desenrola muito bem nesse sentido, mostrando Remy rejeitando a própria família para viver seu sonho dentro de um ambiente no qual seu papel era aquilo que ele mais renegava: viver dos restos dessa sociedade, sem poder pertencer a ela. E olhando bem para a cara e a história desse ratinho simpático, que metáfora poderá se esconder por detrás dele? Que ambiente nobre e meticuloso pode ser comparado à cozinha de um renomado restaurante francês, onde ratos só existem do lado de fora, para dar fim aos restos?

Muitas questões podem ser vistas através do véu dessa fábula, e muitas pessoas poderiam usar a máscara de Remy, sendo tão competentes quanto ele, inpiradas que são por um talento cativo de suas próprias naturezas e não pertencentes a uma tradição de escolas passadas. Um talento, era isso que o rato tinha. O importante então era ser rato e ter esse talento reconhecido, nada mais.

No personagem do crítico gastrônomico Anton Ego está guardada a redenção de Remy: ao provar o ratatouille preparado pelo rato, o crítico mergulha em sua própria história e volta a velha casa da sua infância (no tempo em que era ele o rato?) e ao ratatouille preparado por sua mãe, numa cena que me causou grandes sentimentalidades. E assim ele absolve a si mesmo, livrando-se da arrogância, que talvez seja um peso muito grande aos que precisam vestir-se com essa armadura para não sofrer um preconceito de origem, em detrimento de qualquer talento que possa vir a ter.

E com sua crítica sobre a cozinha de Remy, Ego absolve também os críticos, tecendo um discurso que desmacara nossas falhas e nossos egoísmos , ao mesmo tempo em que exalta a coragem daqueles que nos entregam sem ressalvas o seu trabalho para nossa apreciação, por vezes – e muitas – uma apreciação maldosa.

E com Anton Ego compartilho também um espanto: o de me admirar com uma coisa simples como uma animação, e aos mais apressados que tentem entender o que digo, já que há tempos o que se costumava pensar sobre as animações era a de serem interessantes apenas para as crianças, com suas morais de fábula que tentavam engendrar códigos de postura à cabeças menos maduras.

E como este aqui é um blog vindo e vivido direto da periferia, não existem mistérios em Ratatouille que nós não tenhamos entendido. E muito bem.

1 Comentário»

  nanda wrote @

preconceitos de origem? oh, sim, somos solidárias a remy!


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