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O nascimento de um filme

Fellini por Fellini. L&PM Editores, 1983.

Falando/Escrevendo sobre ele: 

“Um filme não se pode descrever com palavras. Se falo dele, surge algo semelhante a uma materialização que nada tem a ver com o filme. Se um filme nasce sobre imagens verbais, para o futuro espectador soará preconcebido, estranho a si mesmo.” (p.139)

Quando do surge a idéia: 

“Nesse momento o filme possui todos os requisitos, parece que é tudo e ainda não é nada. É uma visão, um sentimento. Sua pureza é o que fascina.” (p.139)

O roteiro: 

“É o momento em que o filme se aproxima e se distancia. O roteiro sonda o que será ou poderá ser. Trata-se de descobrir de que modo se pode concretizar. As primeiras imagens aparecem claras, nada estimulantes, pretextos e ocasiões que não se reencontram. Essas imagens depois somem. O roteiro tem de ser escrito; possui um ritmo literário que é diferente, não se pode comparar com o do cinema.” (p.140)

“Antes de fazer fitas por minha própria conta, trabalhei em muitos roteiros. Era uma tarefa que me fazia sofrer. A palavra seduz, mas empana o ponto concreto, a necessidade visual do filme” (p.140)

“As palavras fazem surgir outras imagens, desviam do objetivo que persegue a imaginação cinematográfica. Há que saber parar, deter-se a tempo.” (p.140)

regiafellini

Ele, materializando-se:

“Tenho que lutar com a produção para salvaguardar algo que pertence só a mim e não a ela. Porque o filme se tornou uma operação financeira que a produtora defende com unhas e dentes, e ele próprio se entrega a essa defesa. E eu, do outro lado, defendo o magma imaginário de que o vi nascer, com a imprecisão e a estranheza que o regia.” (p.141)

Sarcasmo & autobiografia & jogo:

“Dizer que minhas fitas são autobiográficas é uma saída tola. Inventei minha própria vida e a inventei de propósito para a tela. Antes de rodar minha primeira fita, a única coisa que fiz foi me preparar pra ser alto, grande e ter toda a energia necessária para chegar a ordenar um dia ‘ação’. Vivi para descobrir e criar um diretor, nada mais. E não lembro de outra coisa embora passando por alguém que vive sua vida de expressão nos vastos campos da memória.” (p.142)

“Nem sei distinguir um filme do outro, entre os meus. Para mim, rodei sempre o mesmo. Imagens e mais imagens que criei com os mesmos recursos, quem sabe, às vezes a partir de pontos de vistas diferentes.” (p.143)

“O que sei é que tenho vontade de contar. Não digo para piscar à modéstia mas porque, francamente, contar me parece o único jogo que vale a pena jogar.

É um jogo que pra mim, por minha fantasia e natureza, se torna necessário. Ao jogá-lo me sinto livre, sem embaraços. E nisso sou feliz, pois posso jogar com este brinquedo que é o cinema.” (p.143)

Natureza do cinema:

“Não ignoro que tudo é inatural, nem os limites, as embriaguezes que implica, os riscos perigosamente românticos, mas, ante o cinema, não conheço outra perspectiva em que possa me sentir à vontade e de acordo comigo mesmo.” (p.143)

“O fato é que o cinema se aproveita da ignorância de quem o assiste.” (p.143)

“O cinema é uma ilusão, uma imagem que funciona pelo que é em si.” (p.144)

fellini

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