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Na Coletiva de Budapeste

 

Aconteceu nesta terça a coletiva de Budapeste, uma das estréias nacionais mais aguardadas do mês de maio. Dirigido por Walter Carvalho e baseado no romance do escritor/compositor Chico Buarque conta a história do “ghost writer” José Costa cuja vida acaba sensivelmente alterada depois de uma parada forçada na cidade de Budapeste, capital da Hungria, cujo idioma – o húngaro – se transforma em uma espécie de obsessão e refúgio numa vida até então sem grandes surpresas. Estiveram presentes, além do diretor, a roteirista e produtora Rita Buzzar e o trio de protagonistas Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli e Gabriella Hármori. 
Na chegada Giovanna mostrou-se muito simpática, assim como a húngara Gabriella que apesar da barreira do idioma foi bastante solícita. E como não poderia deixar de ser, a distância entre português e húngaro foi o tema da primeira pergunta dirigida ao protagonista Leonardo Medeiros que reiterou o que já havia dito em entrevistas anteriores sobre ter se limitado a compreender e interpretar da melhor maneira possível as falas de Costa, descobrindo logo de cara que não poderia aprender a língua húngara em 100 lições. O ator fez uma analogia entre o mistério desse idioma pertencente à família das línguas urálicas e a cadência da poesia.
Logo em seguida iniciou-se um debate a respeito da dualidade cinema comercial/cinema autoral, ao que Walter Carvalho respondeu que a carga autoral presente na confecção de Budapeste é grande e ultrapassa inclusive a sua função de diretor, já que está presente na produção do roteiro e até na singularidade de cada interpretação. Rita Buzzar, participando desta discussão, limitou-se a dizer que existem bons filmes e nada mais, sejam eles classificados como comerciais ou de autor. Ela prossegue afirmando que “cinema é risco” e que o sucesso não se pode prever, e exemplificando o fato fala da disparidade entre a quantidade de filmes lançados no espaço de um ano e a quantidade “daqueles que marcam sua permanência no imaginário do espectador comum”; e ainda sobre este espectador, Rita afirma que “é preciso produzir filmes com olhos generosos para conquistar o mundo”, e não apenas para agradar os amigos.
A discussão sobre autoria continua com uma segunda pergunta e Walter fala então sobre o plano cinematográfico como expressão do autor, já que “o plano define o cinema” nas palavras dele. O lugar que a câmera ocupa é a afirmação daquilo que o diretor gostaria de mostrar e “o ponto de vista é um território conquistado”, e é nesta atitude de conquista que reside a autoria.
Em seguida Gabriella Hármori é questionada sobre alguma dificuldade na interpretação da obra – ainda seguindo a linha da diferença entre os idiomas – e conta que uma tradução lhe foi entregue e que durante o processo de testes ela esteve em Paris e encontrou o livro entre os dez mais lidos. Sobre ter sido escolhida como protagonista, Hármori disse achar que Walter estava em busca de uma garota “bem solta” e que se sentiu bastante à vontade durante a experiência de trabalho com a equipe brasileira.
Giovanna Antonelli comentou a felicidade de poder trabalhar num projeto com Walter Carvalho e Leonardo Medeiros, elogiando assim os dois, e contou um pouco sobre o processo de construção da personagem Wanda e sobre o método de Walter em deixar os atores livres para criarem e se adaptarem ao espaço e ao mundo dos personagens.
Depois Walter comenta a generosidade de Chico Buarque em aceitar uma pequena participação no filme e diz que a equipe não teve a idéia apenas para atrair os fãs do compositor ao cinema, mas porque dentro do clima de metalinguagem que envolve filme e livro, a participação tem um significado especial: o autor pedindo um autógrafo ao personagem que criou. Em seguida o diretor comenta a comparação entre a adaptação de Budapeste e Estorvo – outro romance de Chico –, este último dirigido por Ruy Guerra. Assim, Walter fala da amizade e das longas conversas que trava com Ruy e o chama de “rei do plano-seqüência”, aproveitando para revelar a influência do amigo em seu trabalho, assim como o fato de que Budapeste seja um filme com menos planos que o normal, revelando não gostar da técnica do plano/contra-plano optando por pequenos plano-seqüência.
Seguindo a entrevista, Walter é questionado sobre trabalhar em conjunto com o filho, Lula Carvalho, ao que responde ser algo já quase instituído já que desde os tempos em que era ele o fotógrafo, Lula era quem cuidava do foco. Emendando então, o diretor responde também a já batida polêmica sobre a gratuidade das cenas de nudez – questão levantada pelo ator Pedro Cardoso durante o Festival do Rio 2008 -, já que Budapeste apresenta várias cenas desta natureza. Assim é que ele aproveita para diminuir a importância desta polêmica e nos contar sobre o trabalho da luz nestas mesmas cenas, cuja lateralidade do foco ajuda a preservar os atores e sua intimidade, tornando a nudez algo delicado e não necessariamente explícito. Interessante é que no trabalho de Lula Carvalho como fotógrafo de Feliz Natal – primeiro longa dirigido pelo ator Selton Mello – o trabalho de luz e a fotografia escura também priorizaram a proteção do trabalho do ator, segundo fala de Selton na época do lançamento.
Ao final e ainda falando sobre o tema da autoria, Walter Carvalho encerra a coletiva fazendo uma analogia entre a produção de um filme e o trabalho de uma orquestra sinfônica, cujos esforços individuais são coordenados sim pela batuta de um regente, numa coletividade de autorias que produzem aquilo que vemos como produto final.
O filme Budapeste estréia no dia 22 de maio.

Um texto menos subjetivo sobre o que escutei na coletiva de Budapeste. As fotos foram gentilmente sedidas pela amiga Erika Liporaci:

Aconteceu nesta terça a coletiva de Budapeste, uma das estréias nacionais mais aguardadas do mês de maio. Dirigido por Walter Carvalho e baseado no romance do escritor/compositor Chico Buarque conta a história do “ghost writer” José Costa cuja vida acaba sensivelmente alterada depois de uma parada forçada na cidade de Budapeste, capital da Hungria, cujo idioma – o húngaro – se transforma em uma espécie de obsessão e refúgio numa vida até então sem grandes surpresas. Estiveram presentes, além do diretor, a roteirista e produtora Rita Buzzar e o trio de protagonistas Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli e Gabriella Hármori. 

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Na chegada Giovanna mostrou-se muito simpática, assim como a húngara Gabriella que apesar da barreira do idioma foi bastante solícita. E como não poderia deixar de ser, a distância entre português e húngaro foi o tema da primeira pergunta dirigida ao protagonista Leonardo Medeiros que reiterou o que já havia dito em entrevistas anteriores sobre ter se limitado a compreender e interpretar da melhor maneira possível as falas de Costa, descobrindo logo de cara que não poderia aprender a língua húngara em 100 lições. O ator fez uma analogia entre o mistério desse idioma pertencente à família das línguas urálicas e a cadência da poesia.

Logo em seguida iniciou-se um debate a respeito da dualidade cinema comercial/cinema autoral, ao que Walter Carvalho respondeu que a carga autoral presente na confecção de Budapeste é grande e ultrapassa inclusive a sua função de diretor, já que está presente na produção do roteiro e até na singularidade de cada interpretação. Rita Buzzar, participando desta discussão, limitou-se a dizer que existem bons filmes e nada mais, sejam eles classificados como comerciais ou de autor. Ela prossegue afirmando que “cinema é risco” e que o sucesso não se pode prever, e exemplificando o fato fala da disparidade entre a quantidade de filmes lançados no espaço de um ano e a quantidade “daqueles que marcam sua permanência no imaginário do espectador comum”; e ainda sobre este espectador, Rita afirma que “é preciso produzir filmes com olhos generosos para conquistar o mundo”, e não apenas para agradar os amigos.

A discussão sobre autoria continua com uma segunda pergunta e Walter fala então sobre o plano cinematográfico como expressão do autor, já que “o plano define o cinema” nas palavras dele. O lugar que a câmera ocupa é a afirmação daquilo que o diretor gostaria de mostrar e “o ponto de vista é um território conquistado”, e é nesta atitude de conquista que reside a autoria.

Em seguida Gabriella Hármori é questionada sobre alguma dificuldade na interpretação da obra – ainda seguindo a linha da diferença entre os idiomas – e conta que uma tradução lhe foi entregue e que durante o processo de testes ela esteve em Paris e encontrou o livro entre os dez mais lidos. Sobre ter sido escolhida como protagonista, Hármori disse achar que Walter estava em busca de uma garota “bem solta” e que se sentiu bastante à vontade durante a experiência de trabalho com a equipe brasileira.

Giovanna Antonelli comentou a felicidade de poder trabalhar num projeto com Walter Carvalho e Leonardo Medeiros, elogiando assim os dois, e contou um pouco sobre o processo de construção da personagem Wanda e sobre o método de Walter em deixar os atores livres para criarem e se adaptarem ao espaço e ao mundo dos personagens.

Depois Walter comenta a generosidade de Chico Buarque em aceitar uma pequena participação no filme e diz que a equipe não teve a idéia apenas para atrair os fãs do compositor ao cinema, mas porque dentro do clima de metalinguagem que envolve filme e livro, a participação tem um significado especial: o autor pedindo um autógrafo ao personagem que criou. Em seguida o diretor comenta a comparação entre a adaptação de Budapeste e Estorvo – outro romance de Chico –, este último dirigido por Ruy Guerra. Assim, Walter fala da amizade e das longas conversas que trava com Ruy e o chama de “rei do plano-seqüência”, aproveitando para revelar a influência do amigo em seu trabalho, assim como o fato de que Budapeste seja um filme com menos planos que o normal, revelando não gostar da técnica do plano/contra-plano optando por pequenos plano-seqüência.

Seguindo a entrevista, Walter é questionado sobre trabalhar em conjunto com o filho, Lula Carvalho, ao que responde ser algo já quase instituído já que desde os tempos em que era ele o fotógrafo, Lula era quem cuidava do foco. Emendando então, o diretor responde também a já batida polêmica sobre a gratuidade das cenas de nudez – questão levantada pelo ator Pedro Cardoso durante o Festival do Rio 2008 -, já que Budapeste apresenta várias cenas desta natureza. Assim é que ele aproveita para diminuir a importância desta polêmica e nos contar sobre o trabalho da luz nestas mesmas cenas, cuja lateralidade do foco ajuda a preservar os atores e sua intimidade, tornando a nudez algo delicado e não necessariamente explícito. Interessante é que no trabalho de Lula Carvalho como fotógrafo de Feliz Natal – primeiro longa dirigido pelo ator Selton Mello – o trabalho de luz e a fotografia escura também priorizaram a proteção do trabalho do ator, segundo fala de Selton na época do lançamento.

Ao final e ainda falando sobre o tema da autoria, Walter Carvalho encerra a coletiva fazendo uma analogia entre a produção de um filme e o trabalho de uma orquestra sinfônica, cujos esforços individuais são coordenados sim pela batuta de um regente, numa coletividade de autorias que produzem aquilo que vemos como produto final.

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Budapeste estréia no dia 22 de maio.

*Para baixar Feijoada Completa cantada em húngaro, basta ir ao site oficial do filme.

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