na periferia da cinelândia

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ô, que deleuze!

gillesdeleuze

descobri que ele sempre me ligava e eu, boba, nunca atendia.

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Interview Project, David Lynch

O novo projeto de Lynch já começou: Entevistando uma série de norte-americanos anônimos e questionando-os sobre coisas triviais o cineasta vai soltando uma nova entrevista a cada três dias, processo que durará um ano, pretendendo simplesmente captar “algo humano, do qual não podemos ficar longe”.

A primeira entrevista foi publicada hoje no site oficial.

Para maiores informações, passe na cabala, siga o mestre ou o twitter do projeto.

budapeste/saudade

 

assisti budapeste. 
não li budapeste.
gosto do chico.
gosto mais ainda do pai dele.
mas voltando à budapeste (o filme, não a cidade), a cena que mais emocionou foi a do telefonema pra casa.
ele diz ‘saudade’ e ninguém responde, apenas o eco.
o eco o faz ter saudade da palavra ‘saudade’ e tantas outras que ele aleatoriamente sai falando a esmo.
lembro então da amiga húngara e dos esforços que ela faz pra ‘comer’ um pouquinho de húngaro falado em raras sessões de cinema ou no encontro com outros húngaros que provavelmente ela não conheceria se estivesse em budapeste.
tudo pela fome de húngaro.
tudo pela fome de casa.
liguei pra casa no final de semana e simplesmente não entendi minha irmã.
o acento das palavras que vinham dela era distante, indecifrável, quase irreconhecível.
fiquei com fome de casa.
com medo de não… não. come medo de nada. com fome, só isso.

assisti budapeste. 

não li budapeste.

gosto do chico.

gosto mais ainda do pai dele.

mas voltando à budapeste (o filme, não a cidade), a cena que mais emocionou foi a do telefonema pra casa.

ele diz ‘saudade’ e ninguém responde, apenas o eco.

o eco o faz ter saudade da palavra ‘saudade’ e de tantas outras que ele sai falando a esmo.

lembro então da amiga húngara e dos esforços que ela faz pra ‘comer’ um pouquinho de húngaro falado em raras sessões de cinema ou no encontro com outros húngaros que provavelmente ela não conheceria se estivesse em budapeste.

tudo pela fome de húngaro.

liguei pra casa no final de semana e não entendi minha irmã.

o acento nas palavras que vinham dela era distante, indecifrável, quase irreconhecível.

fiquei com fome de casa.

com medo de não… não. com medo de nada. 

com fome, só isso.

interessante:

ontem fui rapidamente entrevistada sobre como é ser migrante.

respondi sem vontade.

ver budapeste me fez ter vontade de escrever.

me fez ter saudade de ter saudade.

kriska, a amante húngara de costa diz no primeiro encontro entre os dois: vou te dar a minha língua.

a língua e a saudade de ter saudade (e isso já não foi ela quem disse)

pra terminar, uma observação esdrúxula: um dos meus sobrenomes é costa. 

e costa é também o personagem de budapeste que escrevia romances que eram assinados por outros.

e só se aventurando em língua estrangeira costa descobriu que poderia escrever por e para si mesmo.

e eu ficaria feliz em não ter que repetir o que eu disse.

ou de não ter que esconder meu nome num apelido porque você (um você genérico, entenda!) sempre me pede pra repetí-lo porque não entende o que eu digo.

Um caminho para o Cineorly

Esses dias finalmente entendi qual a verdadeira vontade que se expressa através desse bloguinho, que é menos escrever críticas cinematográficas do que ser um caderno de anotações sobre o cinema em suas várias possibilidades, seguindo a linha de algumas leituras, a experiência em festivais (vide o É Tudo Verdade que começa nesta quinta, 26/03, aqui no Rio) e uma pequena – mas feliz – vivência com o fazer cinema.

A partir de agora, além de postar os já costumeiros textos escritos para o Cine Players, o Cineorly vai ser espaço para salvar algumas idéias e trechos de leituras que me ajudaram ou vem me ajudando na construção de um olhar crítico em formação.

Aqui os links pros últimos textos postados: O Casamento de Rachel e Pagando Bem, Que Mal Tem? (ou Zack And Miri Make a Porno)

E é isso aí pessoal!

A gente se embala se embola simbora!

“Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade.” (Bakhtin, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – O Contexto de François Rabelais. Hucitec, Brasília: 1999. p.6)

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Entonces cá estamos de volta a normalidade das ruas da Lapa e seus inferninhos de buzina de engarrafamento, mas esse texto não vem pra ser chorôrô nem pra falar das partes chatas da vida. Ele vem na verdade pra que eu conte o que aprendi sobre as festividades carnavalescas e o carnaval de rua do Rio de Janeiro.

Apesar de já ter lido sobre o carnaval ser aquele momento que antecede a quaresma e existe pra potencialização da relações carnais (em todos os níveis, como numa espécie de morte simbólica através do exagero) para que enfim o corpo possa entrar no processo de depuração necessário para os festejos de páscoa (e ressureição), foi só depois de ler Bahktin e seu estudo sobre François Rabelais e as comemorações populares ocidentais da Idade Média que visualizei a medida de importância desse período que só pode ser apreendido através da palavra exceção. 

Quando as noções cíclicas de tempo baseadas nos ciclos naturais de colheita/plantio foram dando lugar à organização social que vemos hoje, o carnaval deixou de ser um período de expurgo e libertação pra encerrar a idéia de desperdício de tempo produtivo. Na Idade Média tudo tinha seu lugar no tempo (a festa e a produção) e “ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. Era a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternancias e renovações. Opunha-se a toda perpetuação, a todo aperfeiçoamento e regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto.” (p.9) 

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A foto aí em cima ilustra muito pouco da minha curiosa/feliz vivência desse processo de blocos de rua nos bairros do centro e o mais interessante de transitar por estes bairros foi a tranquilidade de se andar pela cidade, com todo mundo conectado à mesma idéia de diversão e gentileza. Usar o transporte público parecia um grande castigo, mas depois de entrar num ônibus você podia se considerar dentro de um bloco desorganizado e rir bastante de todas as grosserias, xingamentos e bêbados. A expressão riso festivo ou carnavalesco em Bakhtin é forjada justamente como a idéia de  uma risada coletiva e não a reação a um fato isolado cômico de sentido individualizado. É nesse riso que as pessoas não apenas se congregam como se divertem juntos no meio da multidão. 

Um outro ponto diz respeito ao corpo e a sua ‘coletivização’ durante os festejos. Pensando de primeira essa idéia de corpo coletivizado pode ser bastante forte e para os mais pudicos até um pouco pornográfica, mas é a chance de se mostrar aproveitando o calor pra usar roupas menores, fantasiar com o dia-a-dia e somando-se uma linguagem de tipo familiar com apelidos e grosserias não usuais ajudam na trajetória de libertação que o carnaval propõe. Deixando Bakhtin falar, “no realismo grotesco (isto é, no sistema de imagens da cultura cômica popular), o princípio material e corporal aparece sob a forma universal, festiva e utópica. O cósmico, o social e o corporal estão ligados numa totalidade viva e indivisível. É um conjunto alegre e benfazejo.” (p.17) 

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O sentido do grotesco é falar/positivar os aspectos naturais da vida, as excreções, a sexualidade, o riso e nesse conjunto novamente nos ligar aos velhos orangotangos que todos somos, e deixar um espaço no tempo para que possamos exprimir essas idéias sobre as quais refreamos as expressões quase todos os dias, já que não mantemos relações íntimas com a grande maioria de pessoas com as quais nos relacionamos.

Pra fechar com mais uma citação do mestre, “o realismo grotesco e a paródia medieval baseiam-se nessas significações absolutas. Rebaixar consiste em aproximar da terra, entrar em comunhão com a terra concebida como princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de nascimento: quando se degrada, amortalha-se e semeia-se simultaneamente, mata-se e dá-se a vida em seguida, mais e melhor.” (p.19)

Enfim, Bakhtin escreveu o que muitos brasileiros antes mesmo de nós já entendiam há tempos: navegar no mar-carnaval é preciso e viver nunca é preciso. 

Crédito das fotos @andercelly, @nandamelonio.

Agradecimentos especiais aos amigos que montaram o bloquinho-do-nós-bem-louco e descendo as ladeiras de Santa Tereza me deixaram com alguns machucados e muita vontade de continuar viva: Janis, Samuel, Taci, Sara, Belisário e Cincão (do meu coração de melão).

Isto não é uma crítica/O Leitor

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Mesmo já tendo escrito sobre este filme, faltava falar um pouco sobre o impacto pessoal de assisti-lo, aqui da cadeira do espectador comum, coisa que sabemos (ou não) contradiz um pouco as expectativas de um texto com qualidades jornalísticas imparciais.  Entonces, deixo avisado que se você chegou até aqui em busca de informações sobre a sinopse ou mesmo sem vontade de ler spoilers, não continue. Não quero estragar as surpresas de ninguém…

A vontade de ler o romance me ocorreu mais pelo interesse de entender melhor a personagem interpretada por Kate Winslet, Hannah. As nuances da personagem a humanizam, para o melhor e o pior disso, pois a simplicidade de seu caráter pode ser percebido não apenas na identificação de seu analfabetismo, mas em suas roupas e na naturalidade com que ela conduz todo o relacionamento com o garoto sem grandes jogos ou afetações.

A sensibilidade de Hannah fica exposta na cena em que ela se emociona ao ver um coral de crianças cantar numa igreja (lugar que depois saberemos ter uma boa carga dramática na trama) ou na sequência das cenas em que acompanham0s sua reação às leituras do garoto. E essa mesma sensibilidade contrasta com os modos austeros e a disciplina a que ela se impõem, no cuidado com os pequenos detalhes da vida (vide a cena em que ela dá um banho no personagem de David Kross).

Por tudo isso é possível compreender com que naturalidade Hannah aceitou o trabalho nos campos e com que sentimento de dever e proteção ela cuidou dos detentos,  e mesmo com que racionalidade escolhia quem ficava e quem ia para morrer em Auschwitz. Nada disso tira o peso de sua culpa, mas complexifica as atitudes tomadas em momentos de escolhas difícieis como esse, já que apesar de iletrada ela deveria entender bem o drama da guerra que via diante de si.  As escolhas tomadas como certas dentro de sua própria moral e à revelia das informações de quais seriam os verdadeiros motivos para a existência dos campos de concentração só põem em reflexão o terrível nó em que se encontram as pessoas que por um motivo ou outro vivem alheias à informação, um grande tema a ser discutido nos dias de hoje.

Off Blog: Pensando um pouco sobre a banda Calypso

calipso_banda

Tenho acompanhado a perplexidade que tomou conta de muita gente numa discussão que  descambou para a falta de respeito com relação a uma possível indicação da paraense Banda Calypso ao Prêmio Nobel da Paz. O interessante nessa perplexidade agressiva têm sido os rumos que a discussão tomou. Entre ofensas ao estilo musical da citada banda e a uma incredulidade quanto às atividades caridosas dos integrantes, vários pontos totalmente irrelevantes foram levantados, como a questão do gosto particular de quem é fã do som/estilo da banda.

Entre outras coisas, até mesmo os conterrâneos resolveram demonstrar sua indignação alegando que a banda tenha como foco principal justamente o público/pessoas que vivem nas periferias dos nossos centros urbanos, em alguns casos sendo sugerido que o enriquecimento dos integrantes se faz na exploração financeira dessas mesmas pessoas carentes as quais,segundo consta, são voltadas as ações socias que a Calypso promove.

Interessante também é pensar que esse questionamento não sofre o mesmo nível de debate quando recebemos shows de bandas internacionais que, vindo a um país periférico como o nosso, não parecem preocupadas em praticar valores de acordo com o nível da nossa situação social discrepante e jogando agora com dados subjetivos, eu mesma, ex-moradora da periferia e agora uma feliz consumidora classe-c, fico de fora da maioria desses mesmos shows internacionais por falta de grana, já que entre falsificar uma carteira de meia-entrada e deixar de ir ao show a escolha é somente minha. 

Não posso e – acho – nem devo questionar se a banda toma iniciativas que revertem alguma coisa de seus lucros à causas sociais, mas uma coisa eu li por aí a respeito da reconstrução bancada por eles do bairro da cidade de Recife atingido pela queda de um avião do grupo há pouco tempo atrás. Aliás, Chimbinha e Joelma não tem que prestar contas das caridades que fazem ao grande público, assim como eu mesma – aqui da singularidade de minha existência – banco algumas pequenas atitudes sociais na medida do meu bolso e nem pra tanto faço disso uma campanha pra dar visibilidade à conquista de uma alma caridosa.

Acho mesmo é que essa energia dispensada em criticar o caráter da banda deveria ser canalizada em proporções até maiores num debate sério via @congressonacional. As atitudes dos nossos congressistas sim é que deveriam sofrer discussões inflamadas e prestação de contas como essa, mas pouco disso se vê.

E afinal de contas, o que é que chateia tanto as pessoas a respeito da banda Calypso? Será que é o fato de que ela tenha encontrado um meio de se sobressair comercialmente travando um diálogo direto com os fãs e vendendo seus produtos através dos meios mais próximos de seu público (vide camelôs), coisa pela qual a banda Radiohead foi louvada como vanguardista quando se desprendeu de um selo e resolveu vender seu último álbum através do site oficial da banda, a forma mais próxima que o público deles tem de dialogar com uma banda de fama internacional?

Buenas, isso é só a reflexão de uma mulher que nasceu na periferia da periferia de um país periférico (AKA Brasil), então, who cares?

Pra terminar deixo aqui um #mimimi pessoal e intransferível pela tristezinha de não poder ir ao show de uma banda da qual sou fã since 1997 quando gazetei um dia de escola e fui pra casa de um amigo que me apresentou um dos melhores álbuns produzidos na história da música pop:

– Funciona agora, OK HUMAN!

OK COMPUTER!

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REFLITÃO OQUEI BJS