na periferia da cinelândia

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Arquivo para a crítica do crítico

Onde estão os espectadores que gostam de descobrir filmes?

Estava aqui gogleando sobre o mais recente filme de Claude Chabrol, que em português se chama Uma Garota Divida em Dois, quando dei de cara com esse blog português sobre cinema falando sobre crítica de cinema e sobre bons e maus leitores.

Vou colar aqui o trecho final, sobre a alteridade:

“ESCOLA. Não quero simplificar nem quero abusar da vossa paciência com esta nota (breve pela complexidade do que está em jogo, mas longa para este espaço). E não posso ignorar que, obviamente, as inevitáveis divergências sobre este ou aquele filme não passam de um caso particularíssimo de um problema mais geral. A saber: a perda do gosto escolar pelo confronto de ideias e, sobretudo, a capacidade de encarar a diferença do outro como natural e, sobretudo, inevitável. Em última instância, estamos, claro, perante um problema de educação: não a educação dos decretos oficiais ou dos salamaleques hipócritas, mas essa educação interior que, em última instância, não teme a diferença do outro. Ou, se quiserem: do Outro.”

Fica dito.

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Ratatouille

“De certa forma o trabalho de um crítico é simples: nós arriscamos muito pouco, e ainda gozamos de uma posição de superioridade sobre aqueles que nos oferecem o seu trabalho para nosso julgamento. Nós vivemos das críticas negativas que são divertidas de escrever e ler. Mas a dura realidade que nós críticos devemos encarar é que na maioria dos casos, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que nossa critica, assim designada. Mas há vezes em que um crítico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa de amigos.”

Ontem à noite experimentei algo novo. E já que o novo precisa de amigos…

Sim, aquela animação do ratinho cozinheiro que os caras ali na Uruguaiana gritaram nos nossos ouvidos por meses: Ratatui! Ratatui! Eles queriam dizer: Leva! Leva! E eu não os ouvi. Mas depois de ver tanta gente dizer – inclusive o Malafatus, que é chatus humanis – que aquela era uma boa história… Bom, eu resolvi assistir.

Claro que simpatizar com Remy é coisa fácil, mas foi difícil também para mim enquanto ser humano social e ligada à convenções não achar asqueroso quando ele caia em cima de alguma travessa de comida. E esse deve ter sido o jogo dos roteiristas, porque pensar em comida, pra nós, causa uma sensação quase oposta a de se pensar em ratos.

Dividido entre sua natureza e seu amor pela cozinha, Remy vivia aquela vida dupla, quase se achando mais humano do que qualquer outra coisa, através da confusa relação com Linguini – o garoto do lixo que só queria manter seu emprego – a quem cabia ao ratinho manipular como uma marionete, sendo isso necessário e não imposto.

A trama se desenrola muito bem nesse sentido, mostrando Remy rejeitando a própria família para viver seu sonho dentro de um ambiente no qual seu papel era aquilo que ele mais renegava: viver dos restos dessa sociedade, sem poder pertencer a ela. E olhando bem para a cara e a história desse ratinho simpático, que metáfora poderá se esconder por detrás dele? Que ambiente nobre e meticuloso pode ser comparado à cozinha de um renomado restaurante francês, onde ratos só existem do lado de fora, para dar fim aos restos?

Muitas questões podem ser vistas através do véu dessa fábula, e muitas pessoas poderiam usar a máscara de Remy, sendo tão competentes quanto ele, inpiradas que são por um talento cativo de suas próprias naturezas e não pertencentes a uma tradição de escolas passadas. Um talento, era isso que o rato tinha. O importante então era ser rato e ter esse talento reconhecido, nada mais.

No personagem do crítico gastrônomico Anton Ego está guardada a redenção de Remy: ao provar o ratatouille preparado pelo rato, o crítico mergulha em sua própria história e volta a velha casa da sua infância (no tempo em que era ele o rato?) e ao ratatouille preparado por sua mãe, numa cena que me causou grandes sentimentalidades. E assim ele absolve a si mesmo, livrando-se da arrogância, que talvez seja um peso muito grande aos que precisam vestir-se com essa armadura para não sofrer um preconceito de origem, em detrimento de qualquer talento que possa vir a ter.

E com sua crítica sobre a cozinha de Remy, Ego absolve também os críticos, tecendo um discurso que desmacara nossas falhas e nossos egoísmos , ao mesmo tempo em que exalta a coragem daqueles que nos entregam sem ressalvas o seu trabalho para nossa apreciação, por vezes – e muitas – uma apreciação maldosa.

E com Anton Ego compartilho também um espanto: o de me admirar com uma coisa simples como uma animação, e aos mais apressados que tentem entender o que digo, já que há tempos o que se costumava pensar sobre as animações era a de serem interessantes apenas para as crianças, com suas morais de fábula que tentavam engendrar códigos de postura à cabeças menos maduras.

E como este aqui é um blog vindo e vivido direto da periferia, não existem mistérios em Ratatouille que nós não tenhamos entendido. E muito bem.