na periferia da cinelândia

hable con ella: cineorlyarrobagmailpontocom

Arquivo para alice braga

Ensaio sobre a Cegueira

A cegueira como metáfora e o humano como ele é.

Adaptações cinematográficas vindas de best-sellers da literatura não são nenhuma novidade, assim como não é novidade a discussão que sempre surge quando de um  lançamento como esse: o filme conseguiu exprimir a poética do livro? Também já não é novidade o vídeo que mostra o escritor José Saramago ao final de uma exibição de Ensaio sobre a Cegueira, adaptado de livro homônimo do referido autor, e dirigido por Fernando Meirelles. A quiçá de explicação deixemos cada obra separada em seu nicho e falemos do filme.

Muitas foram as expectativas criadas ao redor de Blindness, título internacional do filme já internacionalizado por ter sido escolhido para a abertura do Festival de Cannes esse ano. Todas essas expectativas e discussões acabaram criando uma cortina de fumaça sobre a estética e o discurso propostos pelo filme, prejudicando o recebimento da ‘coisa como ela é’. Antes de tudo, é bom frisar que este Ensaio não é a salvação cinematográfica do mundo, mesmo quando sabemos que sua temática gira em torno justamente de um mundo destruído por uma epidemia de cegueira e que obviamente precisará ser reconstruído sob novas bases. Sua intenção é tão clara quanto simples: na escolha das cores e das abordagens, a crueza é tão explícita que as cenas de estupro precisaram ser suavizadas e, aliás, depois de modificadas como aparecem na versão que estreou nos cinemas nacionais, instigam sutilmente a que se imagine aquilo que está acontecendo na tela, nesse ponto usando um expediente literário.

Essa simplicidade crua foi justamente o que tornou descabidos os momentos de narração (se não me engano, três momentos), já que a auto-explicação através da fala era totalmente desnecessária: a força dos conflitos e imagens conseguem dar conta do discurso a que se propunha este novo trabalho de Meirelles, e afinal, tanto livro quanto filme não seriam processos não-fechados aos quais cabe (e falta) o complemento gerado pela interpretação do espectador? “Explicá-lo” realmente foi um erro: os momentos narrativos – que na versão da estréia em Cannes eram muito mais que três – nos retiram justamente daquela imersão da suspensão da descrença e nos jogam na cara o fictício do filme, desintegrando a aura mítica do observador onisciente, mas não onipresente.

Não é de se estranhar que palavras como ‘desconforto’ ou ‘deprimente’ tenham sido usadas para descrever esse filme: Nele o que vemos é a tal epidemia de cegueira branca que atinge um a um os habitantes de uma metrópole caótica qualquer – com São Paulo servindo muito bem a esse papel – e o exílio compulsivo dos doentes em um verdadeiro depósito humano, em que as relações de auto-conservação acontecerão num micro-cosmo em que veremos a reprodução da luta pelo poder entre um grupo de contaminados que utilizam a força para se sobressair entre os demais – encabeçados pelo personagem de Gael Garcia Bernal – e a única pessoa que escapou imune à cegueira, a mulher do médico, vivida por Julianne Moore.

A personagem de Julianne personifica nossa presença na ação, porque é através de seus olhos que vemos a transformação gradual de mulheres e homens, que despidos das convenções sociais só poderiam agir instintivamente, como os velhos animais que um dia fomos. E desagradável é um adjetivo justo para as cenas que seguem.

Do elenco de atores internacionais encabeçado por Mark Rufallo e Danny Glover e contando ainda com a presença de Alice Braga, nenhuma atuação saltou aos olhos, todos desempenhando suas funções sem grandes erros e sem brilhantismo. A identificação com personagens e situações emociona mais do que as atuações. Mesmo Julianne Moore dessa vez não surpreende, apesar do destaque ao efeito de seus cabelos descoloridos, num tom próximo ao do branco que predomina na fotografia do filme, causando um desconforto interessante em todas as suas aparições. O filme de poucas piadas tem na cena em que Gael Garcia Bernal improvisa uma música de Stevie Wonder um espirituosismo macabro. Na rapidez com que foi editada  a cena em que a esposa do médico se abriga em uma Igreja em que todas as imagens de santos tiveram seus olhos vendados , fica faltando um tempinho pra que se amadureça a moral que ela tenta passar.

A fotografia branca merece destaque no momento em que o primeiro homem fica cego e quando a esposa do médico finalmente imagina estar cega, e é tão bonita quanto terrível, até  mais impiedosa do que  as trevas escuras que o ideário cristão sempre referencia. E não sei se a presença de Garcia Bernal somada a de um casal de orientais me fez lembrar os filmes de Iñárritu, mas em algum momento no apartamento dos orientais em Ensaio, há uma ligação estética com as cenas no apartamento da japonesinha em Babel…

Melhor seria não compararmos Ensaio com Cidade de Deus, afinal as condições de produção e criação foram bastante diferentes para ambos, mas é inevitável  querer ir ao cinema e assistir algo visualmente tão impactante como algo que se espera de Meirelles. Neste sentido, Ensaio sobre a cegueira é apenas um bom filme.

I Am Legend, 2007

A cena mais cara da história de Nova Iorque + marketing no Second Life + Will Smith: Outro sucesso de bilheteria do cinema norte-americano sobre a catástrofe humana, dessa vez com uma pequena participação brasileira.

 

O s norte-americanos parecem tão certos de que uma catástrofe de proporções mundiais  será desencadeada a partir de Nova Iorque que vez por outra  somos contemplados com filmes dessa temática. Os problemas do mundo já foram culpa dos comunistas travestidos em ETs, mas ultimamente o que desencadeia as catástrofes é a irresponsabilidade humana, como em Um Dia Depois de Amanhã cujos efeitos do Aquecimento Global geram mudanças climáticas tão bruscas que o planeta passa por uma nova era glacial.

Eu Sou A Lenda é baseado no livro homônimo de 1954 escrito por Richard Matheson e já teve duas outras produções cinematográficas inspiradas em sua história: Mortos Que Matam, de 1964 e A Última Esperança da Terra, de 1971. O primeiro protagonizado por Vincent Price e o segundo por Charlton Heston.

Na versão de 2007 vemos uma cientista (participação de Emma Thompson) que pensa estar produzindo a cura para o câncer desenvolver um vírus apocalíptico que em 4 anos devasta não só a cidade de Nova Iorque (que na trama do livro era Los Angeles) como provavelmente o mundo inteiro. E ninguém melhor pra salvar o mundo como alguém com alguma experiência, certo? Para isso recrutaram Will Smith para o papel de Robert Neville, cientista militar que acaba aceitando o desafio de buscar um antídoto para o vírus, pois afinal de contas ele parece imune, já que sobreviveu. Assim ele aparece em sua rotina como único habitante da cidade e desenvolvendo várias estratégias para não enlouquecer de solidão. Tem como companhia fiel uma cadela muito esperta e alguns manequins, que ele veste e deixa em lugares que ainda freqüenta, como a locadora de filmes. Logo de cara percebemos que apesar de ser o único ali, alguma coisa está muito fora da ordem e faz com que ele carregue armamento pesado e produtos químicos a toda parte que vá, assim como respeitar com muito rigor um toque de recolher auto-imposto que envolve o enclausurmento em sua casa assim que o sol desaparece. Quem pensar em zumbis ou vampiros ganha um doce.

Vemo-lo arrumando algumas cobaias para as várias versões do antídoto que tenta desenvolver e seus fracassos. Ele também rastreia áreas, faz anotações, recolhe mantimentos e assiste a telejornais antigos durante o almoço. E através de uma freqüência de rádio transmite incansavelmente um aviso para tentar encontrar outros sobreviventes.

No começo você não os vê, depois acha que os zumbis-vampiros são completamente tapados, e mais adiante percebe que eles têm um líder pensante que arruma algumas armadilhas para Neville e consegue ser irônico, o que nos faz pensar que ele ainda guarda algo de humano afinal. E os conflitos vão crescendo, crescendo, e se desenvolvendo até que Neville tem um ataque de burrice e estupidez e… Assim é que Anna aparece na trama, interpretada pela brasileira Alice Braga. Ela ouviu a transmissão de rádio e chegou na hora certa e com várias idéias sobre comunidades de sobreviventes e sobre levar Neville pra lá. Mas todos os pequenos conflitos são eclipsados PELO CONFRONTO FINAL! Isso mesmo, em garrafais, bravo e heróico como todo blockbuster.

Fim da história e início da análise:

Pelo que descobri o projeto de filmagem de Eu Sou A Lenda se arrastou por 13 anos nos escritórios da Warner Bros, a partir de 1994 quando eles conseguiram os direitos sobre a obra de Matheson. Daí começaram as negociações e vários nomes surgiram, como Ridley Scott para a direção, Arnold Schwarzenegger, Tom Cruise e Michael Douglas para protagonista. O principal entrave era mesmo o orçamento grandioso, como podemos perceber pelos cinco milhões de dólares gastos em única cena, a mais cara já registrada na cidade de Nova Iorque, que como é sabido já foi palco de outras produções vultosas. Algo envolvendo a interdição de ruas e algumas áreas ou prédios da cidade foi o motivo da cifra. Como novidade na promoção do filme, um jogo referente a ele foi lançado dentro do Second Life, mas não só isso o liga a ‘era digital’: em uma cena, Neville aparece fazendo o que seria o seu depoimento diário sobre a busca do antídoto em um vídeo de qualidade semelhante aos vídeos ‘caseiros’ que vemos no YouTube.

 

Pensando agora nas atuações, é verdade que não vemos aquele Will Smith engraçado, mas também não vemos outro cara senão aquele de Eu, Robô: A arrogância latente e cega de quem se acha capaz de salvar o mundo ou aquele sofrimento por ter que sacrificar alguém que ama só me convencem de que Smith reinterpreta vez por outra o mesmo personagem.

Alice Braga tem um papel pequeno, mas consegue entrar e sair deixando a impressão de dever cumprido. Com um sotaque quase imperceptível ela demonstra bastante naturalidade em sua interpretação. E apesar de não ter tido espaço para desenvolver melhor a personagem na trama, ganhou elogios da revista Variety e aparecerá em 2008 nas telas em mais algumas produções internacionais, inclusive dividindo um set com Rodrigo Santoro.

Os efeitos especiais do filme tem sido muito elogiados, coisa que na minha opinião estritamente pessoal (sim, é importante ressaltar a pessoalidade dessa minha opinião pois sei que muita gente discorda disso) tem tornado-se cada dia menos complexo de se realizar, ao passo que traz para a trama a explicitação de que aquilo é um ato de ficção, o que dificulta minha submersão na história.

Antes que esqueça de citar o diretor, Francis Lawrence – conhecido por dirigir Constantine – traz alguns pequenos bons momentos que escapam da fórmula, mas ainda assim tem sua ação ofuscada pelos clichês que parecem vir embutidos na essência da trama ou no peso do histórico de filmes correlacionados a esse.

Minha impressão final foi o de estar vendo o novo episódio de um antigo seriado sci-fi que foi repaginado pra que os fiéis espectadores do gênero possam vibrar com um produto novo, e para que algumas pessoas ganhem dinheiro, nada mais.

Notas rápidas: I’m Legend e Eastern Promises

1. I Am Legend em poucas palavras: um filme que de tão comum não conseguiria ser bom, salvo a atuação de Alice Braga.

2. Eastern Promises: desse jeito eu vou ter que esquecer que o Cronenberg já fez algum filme bom.

A Via Láctea, 2007

Porque da explosão surgiu não só o cinema, mas a música, o teatro e a literatura.

Chateada por ter sido atrasada pela cidade, que me fez perder alguns minutos do filme em meio a um engarrafamento sem motivo, lá pelas tantas vejo que Heitor (Marco Ricca – que também aparece como produtor) está separado de Júlia (Alice Braga) por um mar de olhos-faróis, numa cidade chamada São Paulo – que no filme interpreta o papel de si mesma, e sem dúvida exerce um papel. Pensei então que alguma sincronicidade fez com que eu, antes mesmo de saber, estivesse no lugar do personagem, pra depois entender o que se passa. É porque quem vive na Via Láctea sabe que é só um dos zilhões de fragmentos flutuantes que vão e voltam, em círculos, sendo personagens de toda essa confusão.

Então pulemos a parte em que obviamente me identifiquei com a história.

Lina Chamie, que teve seu primeiro longa indicado para a mostra paralela de Cannes (Tônica Dominante, 2000) usa com notável sabedoria a poética para contar a história comum de mais um amor que começa e termina. E a poética não é unicamente cinematográfica: Lina Chamie compõe a história de Heitor e Júlia embalada por uma música quase-personagem de tão bem encaixada, de tão ativa na construção da emoção de cada cena. Mas não seria de se estranhar, já que Lina tem formação musical acadêmica. Ela envolve a trama com a música de Satie (compositor e pianista francês, morto na década de 1920), Mozart e Gil, pois que a música parece fazer exatamente isso em A Via Láctea: envolver a atmosfera do filme como uma redoma, de onde a ação escapole ao explodir.

Aliás, a diretora forja seu filme usando também o teatro e a literatura, de maneiras convencionais e não-convencionais. O teatro vem com a profissão da personagem Júlia, que é atriz e na história aparece como uma das bacantes de uma peça de mesmo nome (As Bacantes), quando encontra Heitor. E isso é um dos elementos que nos ajudam a compreender as diferenças que existem nas personalidades do casal. Júlia é mais livre; Heitor mais apegado.

A literatura também ocupa um espaço na trama. Um espaço delicado, às vezes preenchendo-a de narrativa, quando Heitor começa a expressar seus sentimentos em forma de poemas. Ou quando em devaneios dele, vemos Júlia ou a mãe de Heitor (Mariana Lima), recitando poemas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e também do pai da cineasta, Mario Chamie. O literário também se expressa através da cidade-personagem, quando no caminho entre o amado e seu amor, frases são lidas em paredes, em túneis, em outdoors, como se o todo estivesse concatenado à história e os sentimentos dos personagens de alguma forma ‘vazassem’ e contaminasse todo o caminho, todo o cenário.

E dentro desse universo de subjetividade que a história se constrói: Heitor sofre grande abalo ao receber um telefonema de sua namorada Júlia, que neste instante termina a relação entre os dois. A partir daí, ele sai tentando encontrá-la e o acompanhamos nesse trajeto, que é circular e confuso, onde ele se aproxima e se distancia; onde o tempo vai e volta; onde Júlia é o alvo, mas é a cidade quem manipula os caminhos.

Nessa busca ele conversa consigo mesmo e com o locutor do rádio. Seu caminho é entrecortado por momentos dos dois, como a cena da livraria em que o casal brinca de esconder-se e relevar-se entre as estantes, em mais uma metáfora. Ou no telhado, em que eles parecem se sobrepor à cidade uma única vez.

Em meio a essa narrativa delicada, a câmera nos leva ao banco de passageiros, pra dentro da ambulância. É uma câmera intrusiva que nos faz cúmplices de tudo. São ângulos fechados de câmera na mão, em que até a cidade é vista de ângulos diferentes e pequenos. Em contrapartida paisagens e galáxias em formação aliviam o olhar em algumas cenas.

Toda a ação parece desalinhada e Heitor parece um louco obcecado por encontrar a namorada. Um louco que esbarra em uma criança de rua que sabe que Júlia ainda não ligou para aquele outro homem. Que vê seu rival a alguns metros, no mesmo engarrafamento, comprando flores pra quem? ‘Porque o vendedor de flores falou com ele e não comigo?’ E o assaltante nem quer lhe assaltar: ele vem só para lhe abrir os olhos e lhe expor sua verdadeira e trágica situação, mas leva o relógio para não deixar tudo tão óbvio. A bateria do celular acaba e ele se perde. E parece que estamos diante do pior dia na vida de alguém. E é.

Até os letreiros finais são bonitos e o filme é de todos.

E sim, no final Júlia e Heitor se encontram. Mas já é o final pra nós e pra eles, principalmente para Heitor. Aliás, Marco Ricca numa boa atuação, principalmente nos momentos de raiva, é um outro motivo pra se assistir A Via Láctea, juntamente com todo o lirismo do filme.

Excelente produção. Boas atuações. Fotografia difícil e instigante. Direção e roteiro, este último divido entre Lina e Aleksei Abib, compõem um filme lírico, poético e delicado.

Um filme sobre um casal, uma cidade, o amor, e a morte.