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Estréia: Não Estou Lá

Não Estou Lá

christian bale é bob dylan

richard gere pe bob dylan

Não costumo chamar atenção para as estréias da semana, mas esse é um caso especial. Não Estou Lá é o filme mais recente de Todd Haynes (Save e Velvet Goldmine) e isso já inspira a curiosidade de ver o inusitado de seu cinema que considero um dos mais instigantes – principalmente com relação à estética – da atualidade.

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Lembrando que por este filme Cate Blanchet concoreu ao Oscar 08 de atriz coadjuvante por sua atuação como o músico Bob Dylan (aliás, indicação muito bem indicada) e dentre os 6 atores utilizados neste projeto para interpretar o multifacetado cantor essa também é uma oportunidade de assistir a um dos últimos trabalhos de Heath Ledger, morto em janeiro deste ano.

Vale pela criatividade, pela estética, pelas interpretações, pela trilha sonora… Vale tanto que foi incluída na lista de melhores filmes vistos em 2007 aqui pelo Cine Orly e foi uma das primeiras críticas postadas aqui.

Se quiser ler a crítica de Não Estou Lá, clique na figura abaixo e divirta-se.

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3:10 To Yuma, 2007

Mas pode me chamar de “Os Indomáveis”!

É tão bom sentar pra assistir um filme redondo, desses que tem todos os elementos de um filme atraente o suficiente para te fazer esquecer que há duas horas você deixou pra trás todas as outras coisas importantes que tinha pra fazer.

E a culpa disso pode ser dividida entre muitos, mas especialmente ao carisma do personagem Ben Wade, interpretado por Russel Crowe: Aquele tipo durão-de-velho-oeste que mata com a mesma facilidade de quem usa os pulmões pra respirar sem nunca ter pedido ajuda pra descobrir como se faz. “Até os homens maus amam suas mães” (ou alguma coisa assim) é uma de suas falas ao ver um velhaco xingando sua mãezinha. Ele não só é um bandido procurado como famoso pela audácia dos crimes que comete. Entre assaltos e assassinatos, ele ainda consegue liderar um bando formado por caras também durões. E o mais bacana deles – além do próprio Wade, é claro – chama-se Charlie Prince (Ben Foster), que nutre um grande respeito por seu ‘chefe’, ultrapassando alguns limites para defendê-lo. Esse personagem me fez desejar ter um irmão mais velho que fosse tão fiel a mim quanto ele ao seu boss.

À parte desses meus devaneios, Wade ‘se deixa capturar’ quando resolve dispersar o bando e seguir sozinho depois, para aproveitar a companhia de uma bela dama. Pego pelo dono da companhia de cargas cujo carregamento havia acabado de roubar, sua vida se cruza com a de outro homem, seu perfeito antagonista.

É aqui que entra na história o rancheiro Dan Evans (Christian Bale), que logo de início percebemos como figura fragilizada em várias questões: seu rancho passa por um incêndio criminoso por conta de uma dívida que possui com o dono da companhia assaltada pelo bando de Wade, o senhor Grayson Butterfield (Dallas Robert). Desacreditado pela mulher e os filhos, o rancheiro se envolve na escolta do famoso ladrão ao trem que o levará para prisão de Yuma em troca de uma recompensa, o que amenizaria um pouco seus problemas. Um homem visivelmente desesperado apostando seu caráter e a própria vida, e não apenas por dinheiro, mas também para reconquistar um pouco de sua honra. Sofrendo também pela perda parcial de um dos pés e vendo sua família passar por uma série de humilhações, esta é a chance de Evans honrar-se a si e aos seus.

Toda a ação se desenrola no caminho entre as cidades de Bisbee e Contention, onde a principal questão é pôr Ben Wade no trem das 3:10 para Yuma. Nesse trajeto seguem além do fora-da-lei e do rancheiro, Butterfield, McElroy, um velho malandrão do oeste que ficou gravemente ferido na última investida criminosa de Wade, e o doutor Potter, um homem entre veterinário e médico.

O criminoso segue provocando a todos e em algum momento percebe qual o real motivo para Evans estar ali, e de um jeito um tanto estranho ambos acabam tornando-se companheiros. Para complicar ainda mais as coisas, o bando de Wade segue liderado por Foster e decidido a impedir a ida do chefe para a prisão.

A meia hora final é tão empolgante que é impossível não ficar dividido entre torcer para que Evans cumpra a missão de mandar Ben para prisão tanto quanto para que o bandido escape com um enorme sorriso no rosto.

A direção é de James Mangold (o mesmo de Garota Interrompida e Johnny e June) e acredite ou não, apesar de vários clássicos sobre a honra e as diretrizes que regem o velho oeste já terem sido produzidos, este Os Indomáveis tem todos os ingredientes de uma das histórias vividas por Tom Mix, e é saboroso: unindo alguns personagens cativantes, algumas boas atuações, o charme de Russel Crowe e Ben Foster e a direção inspirada de Mangold.

Pode ver, porque eu não to mentindo. Vale cada cruzada de dedos, cada torcida por um e por outro personagem.

Rescue Dawn, 2006 (O Sobrevivente)

Cada um por si e Deus contra todos.

Meus primeiros contatos com o cinema de Werner Herzog aconteceram com Meu Melhor Inimigo, famoso por mostrar a conturbada relação entre Herzog e Klaus Kinski – o ator que esteve presente nos melhores filmes do diretor, apesar de todos os problemas que causava -, e O Enigma de Kaspar Hauser cuja história tornou-se tão inesquecível pra mim que até criei uma maneira de adjetivar pessoas baseada nele. E a imagem que guardei do diretor foi o de uma força cinematográfica latente, aquele cinema que sabemos fictício, mas que nos traz mensagens tão reais que é impossível não levá-las embora pra casa.

Em O Sobrevivente, no entanto – e que chato dizer isso logo assim, de cara – apesar da força do filme estar personificada no personagem de Dieter Dengler (bem interpretado por Christian Bale), numa história em que o diretor pode novamente nos apresentar a um personagem que precisa adaptar-se a um desconhecido e hostil ambiente, trazendo para a superfície os instintos naturais que aprendemos a enterrar bem fundo dentro de nós, o que levei pra casa foi algo diferente do que costumei a associar a Herzog.

Esse longa tem sua origem num documentário de 1997 dirigido e roteirizado pelo próprio Werner Herzog, Little Dieter Needs to Fly, com uma versão para a TV alemã e outra um pouco mais longa que foi editada para o cinema. Baseada na história real de Dengler, um alemão que se tornou piloto da Força Área americana e em sua primeira missão importante foi enviado para bombardear o Laos, ainda nos inícios do que viria a ser a longuíssima Guerra do Vietnã, e acabou caindo com seu avião, sendo capturado e aprisionado por lá.

Como o próprio título em português sugere, e durante toda a ação por mais bizarras que parecessem as situações em que Dengler se metia minha mente sempre recorria ao título para lembrar que ele ficaria bem, o que quebrou um pouco o nível da expectativa e pode ter contribuído para a essa minha crítica.

Falemos dos vários aspectos que o filme nos traz: Como descever a interpretação de Christian Bale?

(Pensando)

Bale parece um ator de quem não se pode duvidar do gosto pela profissão. É daqueles que quebra os próprios ossos se for preciso, e isso é bonito. Em O Sobrevivente o vemos em diversas situações desagradáveis – que inegavelmente devem ter sido vividas pelo verdadeiro Dengler -, como ser arrastado no chão por alguns metros, amarrado apenas pelos pés ou ser mergulhado num poço estreitíssimo, com as mãos amarradas e tendo que se equilibrar pra manter a cabeça fora d’água. Além disso, é visível o emagrecimento paulatino do ator durante a prisão, ou quando depois de perdido no meio da floresta ele passa fome. Seu rosto vai afinando e se transformando como conseqüência da ‘febre da selva’ que vai se apoderando dele.

E apesar de dizer isso e apesar de achar que foi realmente uma boa interpretação, algo nele não me convence. Resumindo, o que diria é que Bale tem amadurecido como ator, mas que isso é um processo que ultrapassa a imersão do ‘quebrar os próprios ossos’. Espero que ele seja indicado pela atuação e um dia ‘chegue lá’!

A aura meio documental do filme é ponto forte e talvez uma característica da direção de Herzog, que sempre transita pelos dois gêneros, por vezes misturando as coisas. A ação ou os ‘problemas’ vividos pelo personagem, a luta dele por adaptar-se às novas situações, como alimentar-se com vermes e cobras, demonstram essa força que exala dos filmes do diretor. Mas o fato de Dengler tentar arquitetar uma fuga para a noite do 4 julho me pareceu apelativa demais!

Parece verdade que Dieter sente-se muito grato aos USA pela chance de voar, um sonho que ele trouxe da infância, quando pela janela de seu quarto disse ter olhado nos olhos de um piloto enquanto sua cidade era bombardeada. Parece também que ao ser resgatado, ele realmente foi ovacionado daquela forma heroicizante que só os americanos sabem fazer. Mas apesar de tudo que passou e viu acontecer, o personagem não parece vacilar em nenhum momento em sua lealdade ao país. E isso me deixou um pouco confusa entre acreditar que essas atitudes tenham surgido espontaneamente do personagem real, sendo por isso transpostas dessa forma na narrativa do filme, ou se foi uma escolha do diretor-roteirista enfatizar essas coisas.

Então que minha opinião ficou dividida entre reconhecer o cinema de Werner Herzog em mais este filme e estranhá-lo ao mesmo tempo. É como se o considerasse tão bom quanto ruim, tudo ao mesmo tempo, com esses clichês de americanos-que-sobreviveram-ao-Vietnã que ‘engorduraram’ um pouco a limpeza da narrativa.

Termino o texto com a melhor frase do filme: Pra sobreviver você precisa esvaziar o que está cheio e encher o que está vazio. E talvez eu mesma devesse ter esvaziado o que tinha de cheio pra digerir melhor este filme.

Porque vocês também não o assistem pra me dizer o que acharam?