na periferia da cinelândia

hable con ella: cineorlyarrobagmailpontocom

Arquivo para críticas

Festival do Rio, primeiros textos.

Linkando:

Sereia, de Anna Melikyan

Rock’n’Rolla – A Grande Roubada, de Guy Ritchie

Última Parada 174, de Bruno Barreto

Continue, é por aqui!

Anúncios

Encarnação do Demônio, 2008

[Texto originalmente publicado no site Cine Players]

Falar do retorno tão aguardado do mítico personagem Zé do Caixão é falar do amor pelo cinema que movimenta o último diretor remanescente dos tempos áureos de uma Boca do Lixo pulsante: José Mojica Marins, antes mesmo de ser confundido com sua criatura mais famosa, é cineasta e lenda, tudo junto ao mesmo tempo.

Talvez ele seja também um dos últimos a falar sobre os órgãos da censura e sobre como em muitas situações esses ‘juízes da cultura’ – que durante a ditadura não tinham mais o que julgar – impediram a fruição espontânea de Zé, obrigando-o a amenizar situações de seus filmes ou mesmo de fazer Coffin Joe (como Zé do Caixão e conseqüentemente José Mojica são conhecidos mundo a fora), aos modos de um Galileu em tempos de Inquisição, admitir que sim, Deus existe e é legal. Tempos idos de uma história nacional não muito distante, o satanismo continua sendo tabu e Mojica continua a produzir.

Quando nesse texto singelo tento separar criador e criatura, pondo cada um em seu devido lugar, é simplesmente pra que se possa enxergar além do óbvio, além de todas as ridicularizações que costumamos ver associadas ao conhecido maluco de unhas compridas que fala sobre demônios e coisas afins. Mojica Marins por seu esforço e criatividade, ao popularizar a produção de filmes de horror, falava não só ao amante desse tipo de filme, mas também ao produtor pequeno que se via esmagado por uma indústria cinematográfica quase sempre excludente.

Encarnação do Demônio mereceria um prêmio ao menos por sua insistência em existir: concebido em 1967, o filme esteve no limbo por 40 anos, sofrendo com a morte inexplicável dos produtores que se associavam ao projeto (um teve efisema, o outro um derrame e o terceiro, emoção demais) e sem saber, lucrando com a mitologia de energias negativas pairando sobre a produção. Muitas mortes e décadas passadas, alguns filmes pornôs e programas de TV depois, o filho estava para nascer. Coincidência ou não, foi através do financiamento para filmes de baixo orçamento que a trilogia do filho do demônio pôde completar-se, mas não apenas por isso e sim por um ajuntamento de forças ao redor de Mojica: André Abujamra ficou com a trilha; Alexandre Hercovitch com o figurino (e Johnny Luxo com uma pontinha); a musa Helena Ignez e o não menos admirado José Celso Martinez Corrêa são alguns dos amigos e admiradores que o conheceram no longo caminho até aqui.

Interessante nisso tudo é perceber no Encarnação do Demônio uma produção esmerada mesclada às técnicas do cinema de poucos recursos, marca registrada nas produções do diretor, que fazia da precariedade também um lugar de fala política. Fechando o ciclo começado com À meia-noite  levarei tua alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), o terceiro filme da trilogia permanece girando ao redor da geração do filho do demônio e, conseqüentemente, da busca pela mulher (im)perfeita capaz de gerá-lo. A ausência do personagem é justificada por uma prisão de 40 anos em cadeia pública, ao final do que, Josefel Zanatas – vulgo Zé do Caixão – retorna à vida cotidiana, na não menos caótica São Paulo. Destaque positivíssimo é a cena da primeira aparição do personagem, quando se pode sentir a força mitológica das unhas gigantes, mostrando-se cuidadosamente entre as grades da cela. Outro destaque dos planos iniciais fica para a cena em que Zé do Caixão simbolicamente aceita enfrentar a cidade de peito aberto. Aliás, demonstrando atenção especial para a criação de algumas imagens simbólicas, o filme é recheado delas.

Retornando ao mundo com o apoio de seu escudeiro, Bruno (Rui Rezende), que zelou pelos pertences de seu mestre, eles chegam ao novo covil, numa comunidade pobre da periferia da cidade. Nesse lugar os embates terão várias tonalidades: crítica social, religiosidade, satanismo, e alucinações serão os ingredientes que levarão o coveiro a alternar momentos de heroísmo e perversão, confirmando assim que Zé do Caixão transita livremente entre as fronteiras do bem e do mal, assim como desafiando em alguns momentos o limite do caricato.

Na busca pela famigerada mulher capaz de suportar a gravidez da besta, alguns seguidores se juntam a Bruno e seu mestre, e muitas mulheres terão seus limites testados nos momentos mais sujos e sangrentos do filme, com destaque especial para os atores que aceitam se pendurar em ganchos ou terem a cara enfiada numa tina repleta de baratas, em cenas que não deixam margem pra dúvida. No corte da barriga de um porco, mais uma daquelas cenas simbólicas surge, e é preciso dizer que alguns momentos do filme solicitam carga extra do fígado para suportar tanta crueza. Deixo descontados aqui os 40 anos de espera, tanto de criador como de criatura, na busca pela realização de seus objetivos: é fácil perceber que neste filme, personagem e diretor descontaram toda a sede a que foram impostos e nada seria capaz de se interpor entre eles e suas metas. Nem mesmo alguns senões num roteiro quase impecável, e mais uma vez, quase caricato.

As participações de Milhem Cortaz – conhecido do grande público por Tropa de Elite -, Jece Valadão em seu último (e bom) papel no cinema, Helena Ignez no papel da bruxa cega, além de Luiz Melo numa participação pequena, mas eficiente, são as outras pontas de força num filme de atuações quase extravagantes, mas totalmente cabíveis no mundo estranho de Zé. E falando em Zé, as cenas com José Celso Martinez tem na fotografia a sua força, e na beleza cruel da personagem que interpreta a morte, a sua síntese.

Sanguinolento, impiedoso, e perturbado por fantasmas que em suas performances e cores atualizam o horror do personagem sob o parâmetro de filmes como O Chamado, Zé do Caixão volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído, impressionando pela vivacidade de um cineasta que sempre pagou por suas escolhas, e homenagear o amigo Rogério Sganzerla é afirmar isso, com bastante propriedade.

Um Garota Dividida em Dois, 2007

Totalmente sem tempo, e quase publicando uma crítica sobre o imperdível retorno de José Mojica Marins ao cinema, lembrei de postar aqui o link para a crítica de Uma Garota Divida em Dois, publicada no Cine Players há alguns dias.

Lembrando o gostinho dos clássicos que se ocupam de revirar o que a humanidade tem de mais característico, Chabrol faz um filme que se não chega a ultrapassar a barreira de parecer, mas não ser um clássico, surpreende pela condução da trama, apesar de em alguns momentos achar que o mundo do cinema não tem mais lugar para o personagem de um escritor francês que namora meninas e vive uma vida desregrada a la mode de 1968.

Para ler, clique na figura:

Corpo e Personal Che

Atrasada como sempre, aqui vão os links pros dois últimos textos que publiquei no Cine Players:

Personal Che é o nome bastante sugestivo para um documentário que sai em busca dos vários Ches que existem mundo afora, e através dessas diversas representações propõe pensar na construção de um mito e de uma imagem. A colombiana Adriana Mariño e o brasileiro Douglas Duarte são os responsáveis por esse documentário e eu tive a oportunidade de entrevistar o Douglas e é só clicar aqui para ler a entrevista completa. Se quiser ler também a crítica sobre o filme, clique na imagem:

Corpo, filme de Rossana Foglia e Rubens Rewald, estreou em algumas salas do país e conta a história justamente de um corpo perdido-encontrado e a busca por sua história. Para saber mais, clique na imagem abaixo:

Lars and the Real Girl (2007)

Porque se Jesus é o que dizem dele, ele deixaria Bianca entrar.

Se você preconceitua a atual safra de filmes independentes norte-americanos a quem muitos acusam de bonitinhos mas ordinários, com produções e figurinos seguindo o padrão indie de vestir (o que por si só já arrebata o coraçãozinho frágil dos fashionistas) e trilhas sonoras repletas de hits de bandas da islândia ou regiões adjacentes – tudo cuidadosamente formatado para venda –  o cartaz de Lars and The Real Girl pode desencorajar.

Agora, se você foi um adolescente caladão e nerd, que cresceu e se tornou um adulto caladão e nerd, independente dessa onda que fez com que ser caladão e nerd se tornasse uma referência cool a ponto de ser um estereótipo adquirível até por aqueles que não possuem essa natureza, você vai se emocionar com o drama de Lars. Pelo menos foi o que aconteceu comigo.

Lars (numa atuação sensibilíssima de Ryan Gosling) tem 27 anos, mora na garagem da casa que já foi dos pais e agora é do irmão mais velho, Gus (Paul Schneider) e de sua esposa Karin (Emily Mortimer conhecida também pelo papel da mãe em Dear Frank). Sua rotina é muito simples: ele sai de casa pro trabalho e vice-versa. E prefere ficar em casa a ter que realmente se socializar, evitando todo aquele constragimento de perguntas como ‘o que você anda fazendo?’, ‘quando vai arranjar uma namorada?’, ‘você não gosta da gente, Lars?’ E entre viver a dor de perder alguém, ele escolheu não estar com ninguém.

Sua família não entende essa escolha e força a barra. Ele se chateia, mas cumpre seu papel social vez por outra. No trabalho existe até uma moça que gosta dele, Margo (Kelli Garner). Mas as pessoas são muito óbvias e afoitas, e isso também chateia Lars. Até que um dia o cara que divide a baia com ele no trabalho mostra um site, e seis semanas depois ele descobre uma forma de expressar o que sente a comunidade em que vive: Bianca, uma boneca inflável com alguns diferenciais.

O que ele faz é forçar a todos uma convivência com Bianca, tratando-a como se ela fosse realmente viva. Uma dica do significado real dela é quando ao sair da igreja, a senhora Gruner – uma das poucas pessoas que inicialmente apoia a atitude de Lars – oferece flores à Bianca e ele diz: Vê como são lindas essas flores? E elas sempre serão, pois não morrem:são de plástico.

Com o tempo toda a comunidade entra no jogo de Lars, demonstrando apenas o quanto gostam dele, tratando a boneca de forma natural e convidando-a para participar como voluntária na pré-escola, levando-a a festas, cortando seu cabelo. Até a médica da família, doutora Dagmar (Patricia Clarkson) convence-o que Bianca está passando por alguns problemas de saúde devido à adaptação ao clima, já que veio do Brasil, e através de uma terapia mediada pela presença inerte da boneca ela consegue se aproximar e estudar o comportamento dele, entender seu motivos.

Dá pra sentir bem o quanto a boneca se torna um meio através do qual ele consegue se relacionar e ser aceito, quando os dois – Lars e Bianca – vão à festa de aniversário de uma amiga do trabalho dele e todos os tratam como iguais, servindo bebidas à boneca, dançando com ela, invejando seu cabelo. E a cena da volta deles para casa é emocionante.

É complicado perceber o quanto são prejudiciais à sanidade algumas cobranças sociais, criadas sem consideração por aqueles que obviamente não se adaptam a elas. É complicado admitir que estar doente como Lars é estar chateado com o mundo a sua volta. E bom é ser surpreendida com um roteiro como esse, que tratou da questão de maneira criativa e delicada.

Um aplauso extra para Ryan Gosling e para Bianca que souberam comunicar muita coisa mesmo falando tão pouco ou quase nada.

Novas críticas: O Sonho de Cassandra e Zona do Crime.

Lançado no circuito nacional o novo filme de Woody Allen, O Sonho de Cassandra, mistura mitologia grega e um pouco de Dostoiésvski (algumas das inspirações contantes do diretor) para contar a história de dois irmãos que apostam alto demais e precisam pagar o preço.

Enquanto isso, outro lançamento também interessante é Zona do Crime, do diretor Rodrigo Plá que, apesar de pouco conhecido, já tem um oscar no currículo pelo curta Ojo en la Nuca. Mas o fato dele ter ganho prêmios é o que menos importa diante da discussão que pretende lançar com este filme que conta a história de um incidente ocorrido no luxuoso condomínio La Zona, que cerca-se de um enorme muro para separar-se da visível pobreza que o cerca. Uma boa reflexão sobre segregação social, vale o ingresso.

Para ler as críticas completas, clique nas imagens abaixo:

O SONHO DE CASSANDRA

ZONA DO CRIME

Um Beijo Roubado + Estômago

Estréias do final de semana, Um Beijo Roubado – novo do cineasta chinês Wong Kar Wai -, e Estômago que faturou vários prêmios no Festival do RIo 07, ganharam críticas da equipe-do-eu-sozinho publicadas no CinePlayers.

Para ler é só clicar na foto: