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Um caminho para o Cineorly

Esses dias finalmente entendi qual a verdadeira vontade que se expressa através desse bloguinho, que é menos escrever críticas cinematográficas do que ser um caderno de anotações sobre o cinema em suas várias possibilidades, seguindo a linha de algumas leituras, a experiência em festivais (vide o É Tudo Verdade que começa nesta quinta, 26/03, aqui no Rio) e uma pequena – mas feliz – vivência com o fazer cinema.

A partir de agora, além de postar os já costumeiros textos escritos para o Cine Players, o Cineorly vai ser espaço para salvar algumas idéias e trechos de leituras que me ajudaram ou vem me ajudando na construção de um olhar crítico em formação.

Aqui os links pros últimos textos postados: O Casamento de Rachel e Pagando Bem, Que Mal Tem? (ou Zack And Miri Make a Porno)

E é isso aí pessoal!

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Diário: É Tudo Verdade – última parte

Mostra Competitiva – Longas:

Cosmonauta Polyakov (Cosmonaut Polyakov. Dana Ranga, 2007)

Polyakov é um russo e foi o homem que mais tempo passou ao redor da terra. Grande conhecedor das minúcias da vida no espaço, o filme é uma entrevista didática em que ele nos conta e mostra o lado bom e ruim de ser astronauta. O processo probatório, o dia-a-dia no espaço, as conseqüências da falta de gravidade e radiação para o corpo humano, a experiência de comunhão com os outros tripulantes, vivendo em conjunto por tanto tempo, e sua família em terra, são tópicos do documentário. Com uma inocência infantil, Polyakov se emociona quando lembra que estar no espaço foi uma das mais felizes coisas que realizou durante a vida. Um pequeno diferencial no curso normal dos documentários é que durante a entrevista, víamos também uma sessão de fotos com o astronauta russo, e posteriormente algumas manipulações dessas imagens.

Vivendo hoje de treinar e estudar as possibilidades de viagens tripuladas à superfície de Marte, ele revela que existem homens que nascem para exercer esse papel maior e anularem-se em prol de algo mais valioso no curso da história das sociedades. Pelo menos Polyakov pode dizer que cumpriu seu papel.

 

Mostra Restrospectiva do Documentário Experimental Brasileiro:

Semi-Ótica (Antonio Manuel, 1973)

Utilizando fotos de crimes e de alguns homens comuns, o documentarista cria uma pequena ficha que propõe novas identidades aos fotografados, inserindo-os em novos contextos sociais que não os deles, inclusive alterando a catalogação da cor de suas peles, ou mesmo o sexo. Numa referência clara à temática levantada por Hélio Oiticica – Seja Marginal, Seja Herói – em que deu status de arte à foto do corpo morto do conhecido bandido da década de 1960, Cara de Cavalo, Antonio Manuel procura reavivar esta idéia, retirando da marginalidade alguns personagens desconhecidos.

 

Juvenília (Paulo Sacramento, 1994)

Produzido com apoio da ECA-USP esse documentário que mais parece um curta-metragem de ficção, mostra através de fotos estáticas um grupo de jovens se divertindo enquanto torturam um vira-latas. Usando vários tipos de apetrechos como pás, marretas e pedras, a ação dos jovens causou certo desconforto à moça que estava ao meu lado, que preferiu virar o rosto durante os 7 minutos de duração do curta.

Utilizando a música para enfatizar a ação, uma curiosidade sobre o filme é a atuação de Soninha, a ex-vj da MTV e hoje deputada (?) pela cidade de São Paulo.

 

Chapeleiros (Adrian Cooper, 1983)

Mostrando a ação de um dia numa fábrica de chapéus, o que vemos é todo o processo produtivo na confecção do produto, os movimentos repetidos, as diferentes funções e a variação das pessoas que compõem os trabalhadores da fábrica: adolescentes, donas-de-casa, rapazes com jeito de galã, senhores e senhoras de idade que durante o processo se igualam pelo trabalho e se individualizam apenas no final do dia, quando deixam a fábrica e voltam a seus cotidianos e referências singulares.

Interessante é que o cineasta enfatiza, durante a saída, que alguns trabalhadores usam chapéus. De onde terão vindo eles, os chapéus?

Vera Cruz (Rosangêla Rennó, 2000)

Numa tela quase branca alguns traços que se movimentam ao ritmo do mar, cujo som escutamos e que varia de acordo com a tonalidade da tela, dando idéia de claro-escuro. Assim é que lemos os possíveis diálogos que envolveram a chegada das naus de Cabral às terras brasileiras. O primeiro contato com os índios; as trocas; a primeira missa; o espanto com os corpos nus e as tentativas de misturarem-se e conhecerem melhor uns aos outros são o teor dos diálogos.

Uma nova forma de tratar o conhecido texto da carta de Pero Vaz de Caminha, excluindo a dramatização – em geral, tão cafona – do encontro entre portugueses e índios. O documentário apenas sugere aquilo que nunca poderá voltar a ser reproduzido com exatidão: a imensidão do novo. Para ambos os lados desse diálogo.

Com esse último post me despeço do É Tudo Verdade, que continua até domingo aqui no Rio de Janeiro.

Outro dia posto sobre os vencedores das mostras competitivas.

Diário: É Tudo Verdade, parte IV

A primeira vaia ao vivo na sala escura:

Pela primeira vez participei de uma sessão de cinema em que as pessoas vaiaram uma exibição. O filme realmente é… como definí-lo? De difícil deglutição. É, digamos assim.

O filme foi Le Hasard, talvez experimental demais…

Diário: É Tudo Verdade, parte II

Na mostra Retrospectiva do Documentário Experimental Brasileiro um dos destaques era São Paulo, Sinfonia da Metrópole, produzido em 1929, uma das raridades da Cinemateca Brasileira. Os curadores tiveram o cuidado de pôr Wholes de A.S. Cecílio Neto, documentário de 1991, como seu par. E se o segundo não é bem um complemento do primeiro, também não podemos descartar as suas afinidades.

Ambos tratam a cidade de São Paulo como personagem, e em certa medida como um organismo vivo, tentando assim mostrá-la através da humanização. E isso é mais facilmente perceptível em Sinfonia da Metrópole, filme mudo que traça a trajetória de ‘modernização’ de São Paulo usando um artifício intressante: vemos a sinfonia sendo montada aos poucos, acompanhando o ritmo da cidade desde seu despertar, até sua volta à quietude e tranquilidade no início da noite, sendo desta forma possível captar um ciclo inteiro deste organismo cujas engrenagens (termo muito apreciado pelos artistas da década de 1920, quando qualquer menção à máquinas era sinônimo de modernidade) trabalhavam em um ritmo comum e conjunto, contribuindo assim para sua evolução.

É bom dizer que a dupla de produtores húngara, Adalberto Kemeny e Rudolf Rex Lustig, donos da produtora Rex Filme, foram nomes importantes para o surgimento da Vera Cruz devido a seus conhecimentos sobre revelação de filmes cinematográficos e fotografia, conhecimentos estes extremamente necessários a criação de uma indústria nacional de cinema. Inspirados no filme Berlim, Sinfonia de uma Metrópole (de Walter Rutmann, 1927) os cineastas fizeram deste que mais parecia (e deve ter sido) uma peça publicitária encomendada pelo governo da cidade num filme experimental, que com fotografia e trucagens modernas à beça surpreende pela qualidade e ousadia do registro, e que por isso mesmo é considerado um clássico do documentarismo nacional. Em alguns momentos me lembrou muito o Metropolis de Fritz Lang, com suas transições entre mecanismos de relógios e a atividade da cidade, com suas fábricas e efervercência citadina. Ou quando mostra uma paisagem urbana em que numa montagem, aviões de brinquedo voam pelo céu para ressaltar o tamanho do progresso que existia ali.

Já Wholes, o outro filme, segue esse mesmo caminho, o de transpôr o próprio título do festival onde É Tudo Verdade e brinca com o gênero, levando para o formato uma crítica lúdica sobre a cidade de São Paulo que em 1991 já está cansada do título de uma das maiores cidades do planeta – que como diz a narradora, não sei a sexta ou a sétima, mas sei que grande – e com problemas bem sérios para se resolver, como a desigualdade social, a educação infantil pautada pela programação da tv e os vários buracos e inexistências que preenchem o vazio da metrópole.
No final Wholes nos deixa uma boa dúvida: será que São Paulo existe? Será que as metrópoles existem?

Diário: É Tudo Verdade

Mostra Retrospectiva do Documentário Experimental Brasileiro

Cinema Inocente (Júlio Bressane, 1980):

Um documentário cujo elemento fundamental é a montagem, em que Júlio Bressane sai a procurar de Radar, montador de uma centena de pornochanchadas e figura por demais simpática. Aproveitando o fato de ter sido chamado pelo entrevistado de Pedrinho e cineclubista, Bressane parece convencer o montador a uma jogada lúdica, a possibilidade de ser o ator dessa vez, sendo ele mesmo. E a partir daí vemos várias situações cujas correlações são a montagem e a ‘desestigmação’ do cinema, no sentido de que tudo gira em torno dos clichês e dos ícones maiores da sétima arte: entre uma cena e outra, a intercalação de clássicos do nascimento do cinema – quando o simples registro do cotidiano era o principal tema -, e cenas de pornochanchadas, além de muitos devaneios; folheamos um exemplar inteiro de Cahiers du Cinéma, assim como vemos Bressane entrevistar um pseudo cineasta francês, amigo de Radar, tudo isso baseado no mote do filme: cinema inocente é aquele que é feito sem a consciência do que é cinema.

Sabe que no final das contas eu cheguei mesmo a duvidar que Radar se chame Radar e saiba montar um filme?

(Se não fosse pelo Bergman, elegeria este o melhor filme do dia)

 

Mostra Competitiva – Longas

Subindo o Rio Amarelo (Up the Yangtze. Yung Chang, 2007):

Um documentário que se ocupa em mostrar uma das faces do novo capitalismo criado pela China, cujos impactos da criação de uma das maiores hidrelétricas do mundo, a Três Gargantas, é sentido pelo homem comum. Uma das cenas mais impactantes inclusive é a de homem, que como todos os 4 milhões de relocados devido a criação da barragem, não consegue esconder a própria emoção ao dizer que é muito difícil o cotidiano de um homem comum na China hoje, deixando de lado a costumeira contenção de sentimentos ligada aos orientais. O que significa dizer que sua dor deve ser realmente forte.

Através da história de uma família pobre, cujo maior benefício é o fato de morar nas margens do Rio Amarelo, aproveitando a fertilidade do solo para plantar a própria comida, vemos a dura realidade da transição forçada por condicionadores econômicos e o esfacelamento dos sonhos de uma jovem que preferia continuar seus estudos a ter que aceitar o trabalho num dos muitos transatlânticos que cruzam o rio, cheio de turistas em busca de conhecer uma China antiga que já não existe mais.

Todo o processo incluindo a ocidentalização do próprio nome, além da necessidade desse trabalho para que sua família possa sair da margem do Rio Amarelo é sofrida. E o interessante é conseguir perceber o que os cidadãos comuns também devem ter sentido na transformação – por exemplo – da cidade de São Paulo naquela cidade moderna que vi ontem em Sinfonia da Metrópole…

É Tudo Verdade

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A equipe-do-eu-sozinho está participando da cobertura de um dos mais importantes festivais especializados em documentários da América Latina, o É Tudo Verdade que teve início nesta última sexta, dia 28.

Para acompanhar as novidades e críticas, é só aguardar porque a equipe se esforçará para postar o que de melhor for visto por lá.