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Arquivo para festival do rio 07

El Telón de Azúcar, 2006

Um cosmonauta que nunca pisou em terra

‘Um documentário sobre Cuba’ parece muito pouco do que se pode dizer a respeito desta película. Nela nos é apresentada uma visão – pessoal e intransferível – de Cuba hoje, passados quase 20 anos da queda do ideológico muro socialista. Camila Guzmán, filha do documentarista chileno Patricio Guzmán, e cuja família foi recebida por Fidel logo após a derribada de Allende, busca compreender – com uma pequena ajuda de seus amigos – qual o erro na trajetória de seu país adotivo.

O filme fala, sem panfletarismo, de como foi belo o sonho cubano que forjou, em pleno século XX, uma sociedade hedonista/humanista tal qual nossos modelos Greco-romanos, e investiga sob que fina camada de açúcar esses mesmos sonhos foram plantados.

Confrontando passado e presente a diretora passeia entre aqueles que permaneceram em Cuba, e outros que a deixaram, e suas opiniões em geral convergentes, apesar das diferentes atitudes. Fala de sua experiência na escola primária, em que ainda hoje aprendem-se os mesmos hinos de ufanismo e ensina-se todas as glórias passadas, sobre os escombros da revolução.

A preocupação de Guzmán é identificar o que ocorreu com sua geração, Os Pioneiros, preparados para serem los forjadores del futuro: el hombre nuevo que imaginó el Ché, e a inquietação que dominou todos estes jovens diante do declínio vertiginoso de seus ideais. Após o chamado Período Especial (período de turbulentas privações, depois do fim da URSS e conseqüentemente do que sustentava materialmente esse sonho), muitos dos bem educados e capazes jovens cubanos resolveram emigrar, já que a ilha lhes negava o que ela mesma lhes ensinou a prezar: a liberdade de, simplesmente, serem aquilo que gostariam e prepararam-se para ser.

A busca de Camila parece ter sido conclusiva, de acordo com seu comentário quando da apresentação do documentário no Festival de San Sebastián em 2006:

“No creo que sea imposible la revolución, pero Cuba no es un modelo a seguir”.

Cuba falhou, mas os homens estão vivos! E são capazes…

The Science of Sleep, 2006 (Sonhando Acordado)

E se os seus sonhos atropelassem a realidade?

Esse é o mais recente trabalho de Michel Gondry, diretor também do querido Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, que de tão querido, foi um dos motivos que tornaram ainda maiores as expectativas a respeito de Sonhando Acordado.

Acontece que grandes expectativas podem gerar também grandes decepções. Das pessoas que já assistiram, muitas foram as que disseram não ser ele grande coisa; mais um filme e ponto. Então que terei de fazer um caminho mais longo para me explicar.

Como qualifico um filme entre bom e ruim? Primeiro: se ao final dele você for capaz de, em uma frase ou parágrafo defini-lo, ponto! Ao menos ele cumpriu o papel que se propôs cumprir e nós entendemos isso com todas as letras. Segundo: os atores. Bons atores em bons personagens são aqueles que parecem totalmente confortáveis na roupa que vestem. Falam, andam, riem. Como eu ou você. Terceiro: Se o filme nos mostra uma diferente perspectiva de roteiro, uma nova forma de narrativa ou utiliza elementos insólitos para compor sua história, marco mais um ponto em minha cartela. Bem, existem ainda os filmes excepcionais. Mas para esses geralmente não há cartela, nem padrões.

Agora analisando, Sonhando Acordado talvez não seja dos títulos mais felizes, já que Stéphane – o personagem de Gael Garcia Bernal – apesar de viver sonhos lúcidos, sofre também com sua imaginação que o impede de interagir bem com a realidade, e, consciente do problema, empreende uma espécie de investigação, criando assim uma ciência do sono (ou uma science of sleep), com direito inclusive a um talk-show onírico onde discorre sobre receitas de sonhos, recebe convidados, tudo na tentativa de descobri um porquê. Aqui já poderíamos marcar um “x” na cartelinha devido à inventividade do roteirista-diretor, que cria imagens de sonho muito bonitas dentro do mundo de Stéphane. Aliás, personagem um tanto complexo, pois além de sonhar acordado, é tímido, e criou em torno de si esse mundo tão distante do real, que ao realmente apaixonar-se por sua vizinha-quase-xará, Stephanie (A bela Charlotte Gainsbourg), é que percebe que deve encontrar uma solução para seu problema.

Outra boa coisa são os cenários: Os Alpes em um tipo de algodão; a janela da sala do chefe que serve de tela para vários devaneios; o cenário do talk-show, com suas paredes de caixas de ovos e seu piano. E alguns artifícios, como o cavalo-de-pano de Stephanie, a vizinha, que ganha vida; a máquina de controlar o tempo, que antecipa ou atrasa alguns segundos da vida; a água de papel que escapa pela torneira. Todos esses detalhes remontam a uma cuidadosa produção em total sintonia com o roteiro. Mais um ponto na cartela.

Outro ponto vai para os sonhos de Stéphane em si, que são cheios de imaginatividade, beleza e graça, porque para ele acordar é sempre chato. E sonhar é sempre lúdico.

 

Sobre as atuações é justo dizer que Charlotte Gainsbourg está dentro da média, mostrando-se como uma mulher francesa, de grande sensibilidade, mas sem paciência pra entender porque o vizinho aparece nu no corredor e lhe passa um bilhete por baixo da porta ou porque lhe cobra algumas atitudes que ela desconhece. Já Gael, apesar de esforçar-se, parece não ter o carisma necessário para o papel. A idéia que tive é que nos momentos em que ele deveria se mostrar mais carismático, faltou-lhe o timing. No entanto, foi competente em mostrar um protagonista inocente, ensimesmado e confuso. Ah, e bonito também.

Mas quem esperava encontrar na dupla Gael-Charlotte mais um casal fictício complicado e perfeitinho, preferiu lembrar-se da dupla Jim- Kate. Ou Joel e Clementine.

Veremos agora, quantas marcações fiz em minha cartela… Umas tantas. Algumas consideráveis.

E você, quantos “x” marcou?

Não Estou Lá (I’m Not There, 2007)

I’m not a folk singer”: Seis rostos para compôr o retrato de uma vida inteira.

Todd Haynes me inspira duas certezas: (1). Ele adora a Juliene Moore. (2). E gosta de contar histórias sobre personalidades em constante mutação. Por isso, seguindo a linha começada por Velvet Goldmine (em que Haynes traça, a sua maneira, uma cinebiografia do camaleão Bowie), ele traz agora sua versão sobre Bob Dylan, cuja vida é tão multifacetada quanto a de qualquer bom ícone da música pop.

E são as incertezas e transformações, que pendulam entre sucesso e ocaso, que fazem da vida de Dylan um mote interessante. E Haynes capturou a essência disso diretamente das letras e das declarações dele em entrevistas. De autoditada (aos 10 anos Bob Dylan já compunha e tocava violão e piano por conta própria); passando por sua fase de cantor folk de sucesso (cujas canções foram classificadas como hinos de protesto contra um sistema de acumulação e desrespeito à humanidade); em seu estrelato como rockstar, em turnês de centenas de shows, chegando até sua conversão religiosa. E em todas essas situações, Bob Dylan possuía uma postura e um rosto, no que Todd Haynes usou de uma licença poética interessantíssima: para cada uma dessas fases, um ator daria vida e rosto ao personagem principal.

Assim vemos Marcus Carl Franklin, um garoto negro com sotaque de americano-nacido-em Minnesota, interpretando os primeiros passos e a inocência do cantor, que ainda não havia encontrado a direção que sua música deveria seguir, para então ser engolido por uma baleia e descobrir lá dentro que deveria cantar o seu tempo e as suas dores. Christian Bale interpreta o folk-singer, cuja carreira foi chancelada por Joan Baez (participação especial de Juliene Moore no papel), e cujas críticas em forma de poema eram exatamente aquilo que sua geração pedia; aquele que era denominado como ‘a voz do povo’. Aliás, os pôsteres e fotos de Christian Bale imitando os primeiros discos e fotos públicas de Dylan garantem nota 10 à produção do filme. E não apenas por esse detalhe em particular, mas por toda a recomposição de diversos figurinos e situações registradas na história do músico.

Acontece que, no coração de Bob Dylan as inquietações eram enormes. Para explicitar isso, Haynes nos mostra um alter-ego do cantor, autodenominado como Athur R-i-m-b-a-u-d, um dos poetas que o poeta talvez quisesse encarnar. Ben Whishaw interpreta essa espécie de consciência-suprema e onisciente, revisando seu próprio passado e tentando aprender com os próprios erros.

Entra em cena também o melhor de todos os Dylans: Cate Blanchet. Ela interpreta o músico em sua fase rock, em sua conturbada turnê inglesa e o acidente de moto que o fez dar um tempo da estrada. É ela também quem encarna a guerra de nervos entre ele e um apresentador da BBC de Londres (cujo verdadeiro nome, eu desconheço) e sua troca de farpas. Ela é a porta-voz dessa inquietação interna do músico, que em algum momento pergunta ao entrevistador “e é você quem deve me dizer o que devo sentir?”, quando o então astro foi questionado sobre uma possível falta de coerência entre as letras politizadas de seus sucessos folk e sua chegada ao estrelato pop com letras que versavam sobre amor, dor, bebedeiras e carroneiros, temas esses considerados irrelevantes.

É dela também uma das primeiras cenas, a que vemos Dylan no caixão, teoricamente sendo dado como morto, talvez numa alusão a seus diversos sumiços ou recolhimentos, nos quais ele voltava a ser qualquer-um, usando sempre um nome diferente. Aliás, voltando a falar de Blanchet, o filme é dela. Quem disse que ela poderia ser um bom Bob Dylan, merece meu respeito.

E, em meio a isso tudo, o filme mostra também a vida cotidiana do senhor Robert Allen Zimmerman (nessa fase, sendo interpretado por Heath Ledger), seu casamento mais longo (com Sara Lownes, interpretada por Charlotte Gainsbourg) e seus problemas pessoais.

Ainda temos Richard Gere, num momento Dylan-homem-comum, defendendo a cidade onde vive de um extermínio brusco, em troca da construção de uma estrada de 4 pistas. E Christian Bale interpretando o Dylan-convertido, que depois de tantas discussões com O Próprio, resolveu entregar-se a ele.

Todas essas passagens misturam-se na tela, sem preocupações com o que veio no final ou no começo, marcando o tempo no filme com as mudanças do próprio personagem e sua música.

Vale ressaltar ainda: A forma do filme, em alguns momentos imitando aqueles documentários de tv sobre a vida dos famosos; O encontro de Dylan-Blanchet com outro poeta que o inspirou, Allen Ginsberg; o encontro entre ele e os Beatles, numa cena hilária; seu envolvimento mal-sucedido com uma famosa mulher, chamada no filme apenas de Coco e interpretada irreconhecivelmente por Michelle Williams; e a frase que empunhava na maleta de seu velho-violão: Essa máquina mata fascistas! Todo um universo reproduzido com delicadeza, e alguma liberdade poética, com certeza. Mas o próprio Bob Dylan-Dylan aprovou o filme, e tudo está muito bem.

Como final, fica a dica de Dylan-Rimbaud, para aqueles que estiverem um dia em seu lugar, ou em algum patamar um pouco abaixo, porém não menos complexo: Nunca crie nada! Você será eternamente perseguido por isso!