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El Pasado, 2007 (O Passado)

Muitas personagens femininas e a história de um homem.

Saí do cinema acreditando que o maior assunto do filme O Passado fosse a transformação do amor em doença, aquele momento que sempre nos escapa, no qual, mal acaba o amor e já começa a loucura; e esse não deixa de ser um dos motes da história. Agora, se você for atento a detalhes perceberá que em meio ao tumulto o que se conta é a história de um homem, que parece querer apagar-se e ser esquecido, apenas para continuar respirando.

O filme é baseado no livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls, e dirigido pelo meio-argentino, meio-brasileiro Hector Babenco, em cujo currículo constam os filmes Pixote: A Lei do Mais Fraco e Carandiru. O elenco é encabeçado por Gael Garcia Bernal, que parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo: na Argentina como Rímini em O Passado; na França como o Stéphane de Sonhando Acordado; no México como o rico Cristobal de Déficit; e no Brasil como ele mesmo, apresentando todos esses trabalhos.

A história gira me torno de Rímini, um jovem tradutor, e sua ex-esposa Sofia (Analía Couceyro). O filme inicia com esse jovem casal chegando a uma festa onde a anfitriã os aguarda ansiosa. Em meio a uma reunião que parece ser de trabalho, a anfitriã abre espaço para projetar o filme do casamento de Rímini e Sofia, que naquele dia completam 12 anos de casados e parecem ser – para aquelas pessoas – o exemplo de que o amor existe. Mal sabem todos que eles já estão organizando a separação, que transcorre de maneira muito tranqüila: Sofia até ajuda Rímini a encontrar um novo apartamento, que ela mesma decreta ser o que mais vai lhe agradar.

Assim, ele vai aos poucos se desvencilhando de Sofia e começando uma nova vida. Em alguns momentos é fácil pensar que ele já nem se importa com a ex-esposa, que está sempre por perto o lembrando que ele a deixou com o fantasma de uma caixa de fotografias que eles ainda precisam separar. Inclusive, vê-lo usando um retrato de Sofia como ‘apoio’ para o pó, parece grosseiro. Mas, assim que ele começa um romance com a insegura modelo Vera (Moro Anghileri) e esta passa a ser presença constante em sua nova casa, vemos que Rímini ainda guarda um lugar para Sofia. Mesmo que seja escondido sobre o armário da cozinha.

Agora Rímini está com Vera, que desde o primeiro encontro mostra o quão ciumenta é. E é fácil prever que ele está metido em outro problema. E em meio a essas duas mulheres, ele ainda consegue se interessar por uma terceira, sua parceira de tradução, a centrada Carmem (Ana Celentano). Com a entrada de Carmem na trama, acontece a participação de Paulo Autran, ator recentemente falecido. Rímini e Carmem encontram-se quando são contratados para fazer a tradução da palestra do excêntrico Professor Poussière (interpretado por Autran), que estranhamente sempre anda acompanhado de uma jarra com água… É esse evento que concentra um dos episódios mais tensos do filme: quase num mesmo momento, vemos Rímini iniciando seu romance com Carmem, desmaiando com a aparição de Sofia e perdendo Vera num acidente.

Aqui a trama dá uma virada e o protagonista vive uma nova vida ao lado de Carmem. Porém, perturbado com o passado, ele começa a sofrer de uma amnésia seletiva que o faz ir aos poucos esquecendo os idiomas que traduzia, fazendo com que ele perca o emprego. Ele passa a viver duas realidades: a felicidade de um relacionamento estável (que parece selada com a chegada de um filho) e a perda de sua profissão. Conflitante entre essas duas questões, Rímini nunca parece totalmente feliz.

Aqui um parêntese sobre o personagem: minha primeira impressão foi a de que Gael não estava bem no papel. Parecendo apático demais em situações que deveriam fazer o personagem explodir. Apenas na cena em que ele é comunicado de seu divórcio com Carmem é que vemos o personagem exprimir um sentimento condizente com o que se espera, depois de tudo que Sofia apronta, entre seduzi-lo para um encontro e seqüestrar seu filho. No final do filme é que entendi que aquele era Rímini, aquela era a sua personalidade. Um homem de grande sensibilidade que se mantém ensimesmado, sofrendo e tentando se reconstruir. E, ao contrário da personagem de Analía Couceyro, não faz alarde de seus sentimentos.

É assim que a história tenta nos mostrar a diferença entre um homem e uma mulher diante de um mesmo conflito, a separação. Ele a mantém a salvo em algum lugar, tentando, no entanto, caminhar numa direção diferente até que tudo se acalme. E ela não consegue se desvencilhar, encontrando Rímini até em um alemão e correndo contra tudo para trazê-lo de volta.

Segundo Babenco, o próprio Alan Pauls o chamou de louco por acreditar que o livro fosse intransponível para o cinema, por se tratar de uma história composta mais por divagações e silêncios, do que por ações. Mas não foi o que pareceu. A trama parece bem roteirizada, sem nos dar aquela impressão de que os fatos vão sendo mostrados como num videoclipe, para que um romance de 480 páginas caiba em duas horas de filme. Tudo transcorre sem nos assustar.

Boa mesmo é a Analía. Atriz argentina com 15 anos de experiência em teatro, ela está muito bem no papel da apegada Sofia, alternando suavidade, tensão e loucura de maneira competente.

Legal mesmo é ver Babenco numa ponta como projetista de um cinema, pois isso deve ser uma referência à sua própria juventude onde,como ele mesmo disse, encontrava refúgio para seu deslocamento social entre os clássicos estrangeiros, aproveitando também para conhecer novas culturas de uma maneira agradabilíssima.

Ao final, meu sentimento foi o de que, apesar de competente, faltou algo para que o filme me tocasse. Talvez porque, apesar de tudo, nada seja tão excepcional (com exceção de Couceyro): fotografia regular; produção regular; um personagem apático; um bom diretor.

No entanto, vale a sessão!

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The Science of Sleep, 2006 (Sonhando Acordado)

E se os seus sonhos atropelassem a realidade?

Esse é o mais recente trabalho de Michel Gondry, diretor também do querido Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, que de tão querido, foi um dos motivos que tornaram ainda maiores as expectativas a respeito de Sonhando Acordado.

Acontece que grandes expectativas podem gerar também grandes decepções. Das pessoas que já assistiram, muitas foram as que disseram não ser ele grande coisa; mais um filme e ponto. Então que terei de fazer um caminho mais longo para me explicar.

Como qualifico um filme entre bom e ruim? Primeiro: se ao final dele você for capaz de, em uma frase ou parágrafo defini-lo, ponto! Ao menos ele cumpriu o papel que se propôs cumprir e nós entendemos isso com todas as letras. Segundo: os atores. Bons atores em bons personagens são aqueles que parecem totalmente confortáveis na roupa que vestem. Falam, andam, riem. Como eu ou você. Terceiro: Se o filme nos mostra uma diferente perspectiva de roteiro, uma nova forma de narrativa ou utiliza elementos insólitos para compor sua história, marco mais um ponto em minha cartela. Bem, existem ainda os filmes excepcionais. Mas para esses geralmente não há cartela, nem padrões.

Agora analisando, Sonhando Acordado talvez não seja dos títulos mais felizes, já que Stéphane – o personagem de Gael Garcia Bernal – apesar de viver sonhos lúcidos, sofre também com sua imaginação que o impede de interagir bem com a realidade, e, consciente do problema, empreende uma espécie de investigação, criando assim uma ciência do sono (ou uma science of sleep), com direito inclusive a um talk-show onírico onde discorre sobre receitas de sonhos, recebe convidados, tudo na tentativa de descobri um porquê. Aqui já poderíamos marcar um “x” na cartelinha devido à inventividade do roteirista-diretor, que cria imagens de sonho muito bonitas dentro do mundo de Stéphane. Aliás, personagem um tanto complexo, pois além de sonhar acordado, é tímido, e criou em torno de si esse mundo tão distante do real, que ao realmente apaixonar-se por sua vizinha-quase-xará, Stephanie (A bela Charlotte Gainsbourg), é que percebe que deve encontrar uma solução para seu problema.

Outra boa coisa são os cenários: Os Alpes em um tipo de algodão; a janela da sala do chefe que serve de tela para vários devaneios; o cenário do talk-show, com suas paredes de caixas de ovos e seu piano. E alguns artifícios, como o cavalo-de-pano de Stephanie, a vizinha, que ganha vida; a máquina de controlar o tempo, que antecipa ou atrasa alguns segundos da vida; a água de papel que escapa pela torneira. Todos esses detalhes remontam a uma cuidadosa produção em total sintonia com o roteiro. Mais um ponto na cartela.

Outro ponto vai para os sonhos de Stéphane em si, que são cheios de imaginatividade, beleza e graça, porque para ele acordar é sempre chato. E sonhar é sempre lúdico.

 

Sobre as atuações é justo dizer que Charlotte Gainsbourg está dentro da média, mostrando-se como uma mulher francesa, de grande sensibilidade, mas sem paciência pra entender porque o vizinho aparece nu no corredor e lhe passa um bilhete por baixo da porta ou porque lhe cobra algumas atitudes que ela desconhece. Já Gael, apesar de esforçar-se, parece não ter o carisma necessário para o papel. A idéia que tive é que nos momentos em que ele deveria se mostrar mais carismático, faltou-lhe o timing. No entanto, foi competente em mostrar um protagonista inocente, ensimesmado e confuso. Ah, e bonito também.

Mas quem esperava encontrar na dupla Gael-Charlotte mais um casal fictício complicado e perfeitinho, preferiu lembrar-se da dupla Jim- Kate. Ou Joel e Clementine.

Veremos agora, quantas marcações fiz em minha cartela… Umas tantas. Algumas consideráveis.

E você, quantos “x” marcou?