na periferia da cinelândia

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Arquivo para húngaro

budapeste/saudade

 

assisti budapeste. 
não li budapeste.
gosto do chico.
gosto mais ainda do pai dele.
mas voltando à budapeste (o filme, não a cidade), a cena que mais emocionou foi a do telefonema pra casa.
ele diz ‘saudade’ e ninguém responde, apenas o eco.
o eco o faz ter saudade da palavra ‘saudade’ e tantas outras que ele aleatoriamente sai falando a esmo.
lembro então da amiga húngara e dos esforços que ela faz pra ‘comer’ um pouquinho de húngaro falado em raras sessões de cinema ou no encontro com outros húngaros que provavelmente ela não conheceria se estivesse em budapeste.
tudo pela fome de húngaro.
tudo pela fome de casa.
liguei pra casa no final de semana e simplesmente não entendi minha irmã.
o acento das palavras que vinham dela era distante, indecifrável, quase irreconhecível.
fiquei com fome de casa.
com medo de não… não. come medo de nada. com fome, só isso.

assisti budapeste. 

não li budapeste.

gosto do chico.

gosto mais ainda do pai dele.

mas voltando à budapeste (o filme, não a cidade), a cena que mais emocionou foi a do telefonema pra casa.

ele diz ‘saudade’ e ninguém responde, apenas o eco.

o eco o faz ter saudade da palavra ‘saudade’ e de tantas outras que ele sai falando a esmo.

lembro então da amiga húngara e dos esforços que ela faz pra ‘comer’ um pouquinho de húngaro falado em raras sessões de cinema ou no encontro com outros húngaros que provavelmente ela não conheceria se estivesse em budapeste.

tudo pela fome de húngaro.

liguei pra casa no final de semana e não entendi minha irmã.

o acento nas palavras que vinham dela era distante, indecifrável, quase irreconhecível.

fiquei com fome de casa.

com medo de não… não. com medo de nada. 

com fome, só isso.

interessante:

ontem fui rapidamente entrevistada sobre como é ser migrante.

respondi sem vontade.

ver budapeste me fez ter vontade de escrever.

me fez ter saudade de ter saudade.

kriska, a amante húngara de costa diz no primeiro encontro entre os dois: vou te dar a minha língua.

a língua e a saudade de ter saudade (e isso já não foi ela quem disse)

pra terminar, uma observação esdrúxula: um dos meus sobrenomes é costa. 

e costa é também o personagem de budapeste que escrevia romances que eram assinados por outros.

e só se aventurando em língua estrangeira costa descobriu que poderia escrever por e para si mesmo.

e eu ficaria feliz em não ter que repetir o que eu disse.

ou de não ter que esconder meu nome num apelido porque você (um você genérico, entenda!) sempre me pede pra repetí-lo porque não entende o que eu digo.

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Com a Hungria dentro de casa: conhecendo Béla Tarr.

Ainda morando numa república e aproveitando a companhia e indicação da mais nova moradora da casa – que é húngara e estudante de cinema – parti (mos) para o último dia de uma mostra sobre o cineasta húngaro Béla Tarr.

De antemão, tudo o que sabia sobre ele era que o pessimismo dava a tônica a seus filmes que, em geral, são filmados em preto e branco e trazem longas seqüências contínuas que dão a impressão de passagem de tempo ou de aproximação com o tempo real. Apesar do que possa parecer, assistir algo novo e que não fosse previsível foi o que me motivou. E também me pareceu uma boa chance de entrar um pouco mais no mundo de minha nova companhia, que de tão interessante, valia o esforço.

O filme era Werckmeister harmóniák (Hungria, 2000) com áudio em húngaro e legendas em espanhol. Antes, terei que explicitar o que acho mais fascinante sobre os húngaros: sua língua, um código bem codificado, no tamanho dessa redundância mesmo. Era o meu foco de atenção ao assistir ao filme. Ficava ali vidrada tentando perceber a sincronia entre o som e o lábio dos atores. E logo de início levei um susto simplesmente porque o protagonista, János (Lars Rudolph), quase não mexia os lábios ao falar, e mesmo quando o fazia, eu não conseguia perceber a relação entre o som e o movimento dos lábios. Aquilo me deixou mais intrigada com o húngaro, até descobrir que o ator é alemão e estava sendo dublado, coisa que incomodou minha amiga que estava ali para suprir a necessidade de ouvir alguém falando como ela.

E tudo acabou sendo uma descoberta: a língua, a dublagem, a legenda, o cinema de Béla Tarr. E eu até consegui fazer críticas sobre ele, vejam só! A experiência foi sensitiva como assistir cinema mudo e tentar pescar o conceito geral da coisa toda através das imagens que, só pra lembrar, são o produto em si do cinema. E Tarr parece saber bem disso, pois constrói imagens que oscilam entre bonitas e quase caricatas, de tão obviamente construídas que são. No contraste entre a luz e a escuridão, o preto e o branco, portas serviam como molduras da ação, e as longas seqüências que acompanham movimentos – em geral caminhadas – pareceram como um estudo de movimento contínuo: numa cena em que uma multidão caminha para o mesmo lugar, é possível perceber a oscilação no andar de cada um e o ritmo que todos aqueles andares juntos imprimiam a imagem maior, que parecia a de um bloco animado, uma centopéia de mil pernas. Ou quando o protagonista caminha sobre trilhos e seus passos formam um som ritmado e reproduzível, e é claro que acompanhei o ritmo batendo meus pés no chão. Talvez isso sirva também pra lembrar que a vida tem momentos que levam de um ponto a outro, de uma ação a outra, e que isso nem sempre é rápido, mas tem seu ritmo próprio.

Em outras sequências a caminhada nos fazia perceber o barulho do vento, que zunia não só nos cabelos do ator, mas na sala inteira a ponto de incomodar. No entanto a música, usada pouquíssimas vezes (narrativas construídas sem música costumam chamar minha atenção) pareceu sempre desnecessária, imprimindo às cenas um aspecto kitsch. Depois de vários momentos no silêncio, a música parecia estar ali para enfatizar a importância ou o sentimento que deveria estar ligado à cena, mas não era necessário. A construção da narrativa e dos personagens era suficiente para que soubéssemos o que deveria ser esperado.

Aliás, do personagem János o que percebi foi que recebia muitas ordens e fazia várias coisas a contragosto, e chamava a todos de ‘tio’ e ‘tia’, pelo menos na legenda em espanhol. Depois descobri que apesar dele parecer um homem com quase 30 anos, sempre que se referia a pessoas mais velhas, usava uma expressão particularmente utilizada por crianças (que significa algo como beijo-lhe as mãos, sinal de respeito), o que talvez tenha levado o tradutor ao verbete tia/tio não necessariamente por uma afinidade familiar entre János e quase todos os outros moradores da cidadezinha com quem ele se relacionava, mas para passar a idéia da condição de infantilidade com que ele se colocava nestas relações. Foi confuso pensar em János como sobrinho de todo mundo ao mesmo tempo em que era notório perceber a sua fragilidade frente aos outros.

Essa característica talvez tenha relação com o papel que ele parecia cumprir na narrativa: Em uma cidadezinha do interior da Hungria que vivia seu ritmo de tempos atrás, a chegada de um circo atrai visitantes e a necessidade da revelação de um segredo maior, escondido sob o manto do espetáculo, ao que János parece ser o único a entender como positivo e até poético. Por conta disso, todo o ritmo da cidade se altera, e o que vemos ao final é quase a mesma mensagem que os personagens dos ciganos representavam na narrativa de Cem Anos de Solidão, o livro de Gabriel Garcia Márquez: o contato com o novo e o imprevisível transformando as relações numa sociedade pequena, estática e já desesperançosa de mudança. Por isso o protagonista traz em si um símbolo de inocência, uma infantilidade que parecia necessária a nutrição da esperança. Inclusive é por essa inocência/esperança que János acaba pagando um preço e modificando a conduta de outro homem, que sai da sua postura egoísta de sábio/isolado para a de altruísta/zeloso, invertendo os papéis com o protagonista e tomando conta dele, quando antes era o contrário que acontecia: János era o único a se importar com ele a ponto de respeitar sua decisão de isolar-se.

No final foi bom ouvir de Saci que aquilo era – claro – apenas uma idéia da Hungria e não o todo desse país que eu comecei a conhecer há pouco tempo.

Sobre Tarr obviamente que não posso dizer muito além do que pude observar acima, conhecendo dele apenas um único filme, e talvez nós possamos conhecer juntos clicando aqui e aqui.

Boa leitura e até a próxima novidade aqui, direto da periferia.