na periferia da cinelândia

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Arquivo para irmãos coen

Os melhores/2008

Depois de muito refletir – porque 10 é muito pouco – montei uma lista:

1. Onde os Fracos Não Têm Vez/Irmãos Coen
2. Sangue Negro/P.T. Anderson
3. Na Natureza Selvagem/Sean Penn
4. Linha de Passe/Walter Salles&Daniela Thomas
5. Speed Racer/ Irmãos Wachowski
6. Ainda Orangotangos/Gustavo Spolidoro
7. 2 Dias em Paris/ Julie Delpy
8. Viagem a Darjeeling/ Wes Anderson
9. Personal Che/Adriana Mariño&Douglas Duarte
10. Vicky Cristina Barcelona/Woody Allen

Menção honrosa (ou seja, pairando acima): A Mulher Sem Cabeça/Lucrecia Martel

Prêmio O Retorno de Jedi: Encarnação do Demônio/José Mojica Marins

Prêmio Lencinho de Ouro: Pan-Cinema Permanente/Carlos Nader e Lóki-Arnaldo Baptista/Paulo Henrique Fontenelle

Prêmio Medo de Ouro: O Nevoeiro/Frank Darabont

Prêmio Quase Entendi e Ainda Gostei: Liverpool/Lisandro Alonso

E, finalmente:

Prêmio Morango do Nordeste (ou apesar de colher as batatas da terra, mamãe: eu sei fazer arte!):

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro/Glauber Rocha

pelo lenço vermelho, pelo glauber, pelo dragão e pelo santo.

errata: vou deixar o wes anderson, repetido mesmo.

Festival do Rio, post 3

Quinto dia festival e alguns textos atrasados. Então, vamos atualizar isso aqui:

Queime Depois de Ler, Joel e Ethan Coen

Abaixando a Máquina, Guillermo Planel e Renato de Paula

Ano Unha, de Jonás Cuarón

A Mulher Sem Cabeça, Lucrecia Martel

No Country For Old Men, 2007

Onde os Fracos Não Têm Vez

Pra que continuar sem ter mais lugar em seu próprio lar?

Não sei se concordo com o título em português, porque ninguém me parece fraco nesse filme. Viver 50, 60 anos no mesmo lugar, absorvendo e moldando seu caráter através da movimentação social de uma comunidade e depois não conseguir entender quem são e de onde vieram aqueles ‘alienígenas’ que subvertem cruel e diariamente a velha realidade, e ainda ter que admitir pra si próprio que teu lar não tem mais um lugar pra ti, dói até no mais forte dos homens.

Cormac McCarthy ganhou vários prêmios pelo livro Onde os Velhos Não Têm Vez, (lançado no Brasil pelo selo Alfaguara, ligado à Editora Objetiva) cuja história foi adaptada pelos próprios Irmãos Coen e que antes mesmo do Oscar já faturou vários prêmios como Melhor Direção, Melhor Elenco e Ator Coadjuvante, para Javier Bardem.

Quem conhece o anti-convencionalismo que permeia os trabalhos dos Coen pode imaginar que Onde os Fracos Não Têm Vez não pode ser taxado como um faroeste moderno ou qualquer título desses. O filme nos faz pensar exatamente na subversão de valores da ‘ética do faroeste’, da vida em uma região fronteiriça que sempre conheceu a violência, mas que não consegue compreender a banalização em torno dela, pois até mesmo os homens maus têm seu código de honra. Apesar de tudo, até Anton Chigurh (Javier Bardem) tem seu código.

Aproveitando a deixa do Bardem, falemos do elenco e comecemos por ele. Interpretando o inadjetivavél Anton Chigurh, seu também enigmático corte de cabelo é apenas uma outra forma de demonstrar visualmente que aquele homem não é comum, e de chamar a atenção logo de cara. E logo de cara sabemos que ele é um assassino, personagem tão sui generis que costuma matar usando um tubo de ar comprimido. O pior é que ele está só fazendo o seu trabalho e é extremamente metódico, por isso cuidado ao atravessar o seu caminho. Melhor desviar ou a sua única chance de escapar é ganhar um cara/coroa com ele. Bardem merece nosso respeito, independente do que digam sobre ele parecer caricato no papel. Caricato, não. Talentoso o suficiente pra tirar de dentro de si um homem sem adjetivos.

Já Josh Brolin teve um ano cheio: Planeta Terror, O Gângster… Para o papel de Llewelyn Moss ele inclusive pediu ajuda para a dupla Tarantino/Rodriguez no seu vídeo de audição. Apesar dessa ajudinha dos amigos, Brolin mostrou-se competente, com sotaque e tudo. Mesmo usando a casca de durão, Llewelyn se mete no caminho de Chigurh sem querer, e depois não consegue mais sair. O que surge daí é uma perseguição aflita e inusitadamente bem construída.

Mas falando ainda em sotaques, foi engraçado reconhecer Kelly Macdonald (aquela mesma menina que passa a perna no personagem Mark Renton de Trainspotting) na pele de uma moça bem texana, no caso Carla Jean Moss, a esposa durona de Llewelyn, que é excluída de todas as decisões, mas sabe que por pior que seja o inimigo, seu marido também não entregará os pontos.

É interessante que Woody Harrelson apareça numa participação, no papel de Carson Wells, encarregado de tentar dar um freio na fervorosa atuação de Chigurh na tarefa de reaver a maleta. É claro que ele falha. E Woody saí do filme sem fazer a menor falta.

E completando a lista de protagonistas, Tommy Lee Jones. E é ele o velho homem sem lugar, aquele que não consegue entender o crime que narra, nem porque os garotos de hoje pintam os cabelos de verde e não usam mais palavras como ‘senhor’ e ‘senhora’. Em algumas cenas é possível sentir a confusão no olhar do Xerife Bell, aquele cujo pai e cujo avô foram xerifes como ele, numa época em que policiais nem usavam armas. É ele quem personifica o choque de gerações. Veja bem, não um choque entre gerações. Mas o choque particular de um homem simples que não entende a crueldade pura e simples da mudança dos tempos.

A sinopse vocês já devem conhecer: Em 1980 na fronteira do Texas com o México, Llewelyn caça veados na planície, quando de repente cai no meio de uma cena de crime e encontra um carregamento de heroína, alguns corpos e carros, um mexicano com sede e uma maleta com 2 milhões de dólares. Quem não se arriscaria por reaver essa quantia? É o que ele pergunta a Carla Jean, já se preparando para fugir e sabendo que seria perseguido.  Então entra em cena Anton Chigurh, assassino sarcástico que não mata apenas por dever, encarregado em trazer de volta o dinheiro. Em meio às confusões que o assassino vai aprontando, Xerife Bell segue seu rastro, tentando proteger Llewelyn não só por ele pertencer a sua comunidade, mas por saber de cara que ele se meteu nisso sem nenhuma noção do problema que tinha criado pra si.

O massacre se desenrola engolindo a gente, mas é fácil perceber a mão dos Coen, seja na maneira como Llewelyn consegue encontrar o dinheiro, seja na primeira conversa que vemos entre ele e Carla Jean. Ou no posicionamento e ingenuidade burra do parceiro do xerife, Wendell (Garret Dillahunt), como no posicionamento da câmera na primeira crueldade de Chigurh, que inclusive é um personagem com certo humor. Um humor que saiu de dentro da cartola dos irmãos. É daqueles filmes que se você pudesse assisti-lo sem saber nenhuma informação sobre sua produção, no final diria: isso é coisa de Joel e Ethan Coen.

E é um trabalho realmente guiado por eles, que além de dirigirem e adaptarem o romance de Cormac McCarthy, foram também os responsáveis pela edição do filme sob o pseudônimo de ‘Roderick Jaynes’. Ainda falando na presença invisível deles dentro da história, será possível que tenha existido mesmo uma farmácia em Minneapolis chamada Mike Zoss Pharmacy? Aquele nome me chamou a atenção, mas agora eu sei que foram eles que deram a pista para que nós nos lembrássemos da Mike Zoss Productions, a produtora dos irmãos. É como deixar um espaço para dizer claramente: Você conseguiu ver aquilo? Então conseguiu ver quem é que gira o guidom dessa história.

Realmente estou dividida. Ainda bem que não sou eu quem deve escolher entre entregar o Oscar para eles ou para o P.T. Anderson.

Antes de terminar falta ainda dizer que a trilha sonora sem trilha só fortalece a angústia de algumas cenas. Aquele suspense que vai crescendo no fundo do silêncio. Qualquer barulho e Chigurh aparece! Até eu sei disso.

Alguns críticos – até onde pude ler – não gostaram da cena final. A mim pareceu bem emocionante ver aquele xerife velho e agora aposentado dizendo que seu pai morreu aos vinte e por isso sempre será mais novo que ele, e que tudo que ele sonha, agora que tem tempo pra isso, é ter um ponto imutável no tempo onde possa se segurar. Mesmo que ele ande e ande, é só olhar pra trás e lá estará o homem. O homem cujos padrões e autoridade ele reconhece e aceita, e o único para qual ele se curvaria. Pois, fraco é uma coisa que ele não é. Tampouco esse filme.

irmãos coen X p. t. anderson

quem acompanha notícias sobre cinema deve ter visto a lista de indicados ao oscar/2008, e percebeu também que entre os indicados No Country For Old Men (Onde os Fracos Não Têm Vez) e There Will Be Blood (Sangue Negro), o primeiro dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen e o segundo por Paul Thomas Anderson são os grandes concorrentes pelas estatuetas mais importantes.

o Cine Orly teve a honra de já ter assistido a ambos e, confesso, ainda bem que não sou eu quem terá que decidir entre um e outro.

não sei se a grande vantagem dos Coen é serem dois, mas se levarmos em conta esse critério, Anderson – por ser um só – deveria ganhar. acontece que o filme dos irmãos me parece muito mais coeso, como um bloco único em que nada nem ninguém consegue destacar-se sozinho, enquanto que no filme de Paul Thomas existe Daniel Day-Lewis

além disso, e na minha singela opinião, No Country For Old Men tem a seu favor o conjunto das interpretações, com talvez um pequeno destaque a Javier Bardem, cujo papel muitos já anunciam como forte candidato a entrar no hall dos inesquecíveis vilões do cinema. além da história, que nos prende do começo ao fim devido ao suspense.

There Will Be Blood por sua vez coroa a atuação de Day-Lewis com a ótima trilha sonora de Jonny Greenwood que é realmente impressionante pela vivacidade que dá às cenas. porém, os personagens são o grande trufo do filme, enquanto sua história poderia ser melhor.

(suspiro)

os dois filmes são desses que ficam em nós mesmo depois de sairmos da sala. então, que vença aquele que vencer, porque  ambos são os melhores.