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Isto não é uma crítica/O Leitor

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Mesmo já tendo escrito sobre este filme, faltava falar um pouco sobre o impacto pessoal de assisti-lo, aqui da cadeira do espectador comum, coisa que sabemos (ou não) contradiz um pouco as expectativas de um texto com qualidades jornalísticas imparciais.  Entonces, deixo avisado que se você chegou até aqui em busca de informações sobre a sinopse ou mesmo sem vontade de ler spoilers, não continue. Não quero estragar as surpresas de ninguém…

A vontade de ler o romance me ocorreu mais pelo interesse de entender melhor a personagem interpretada por Kate Winslet, Hannah. As nuances da personagem a humanizam, para o melhor e o pior disso, pois a simplicidade de seu caráter pode ser percebido não apenas na identificação de seu analfabetismo, mas em suas roupas e na naturalidade com que ela conduz todo o relacionamento com o garoto sem grandes jogos ou afetações.

A sensibilidade de Hannah fica exposta na cena em que ela se emociona ao ver um coral de crianças cantar numa igreja (lugar que depois saberemos ter uma boa carga dramática na trama) ou na sequência das cenas em que acompanham0s sua reação às leituras do garoto. E essa mesma sensibilidade contrasta com os modos austeros e a disciplina a que ela se impõem, no cuidado com os pequenos detalhes da vida (vide a cena em que ela dá um banho no personagem de David Kross).

Por tudo isso é possível compreender com que naturalidade Hannah aceitou o trabalho nos campos e com que sentimento de dever e proteção ela cuidou dos detentos,  e mesmo com que racionalidade escolhia quem ficava e quem ia para morrer em Auschwitz. Nada disso tira o peso de sua culpa, mas complexifica as atitudes tomadas em momentos de escolhas difícieis como esse, já que apesar de iletrada ela deveria entender bem o drama da guerra que via diante de si.  As escolhas tomadas como certas dentro de sua própria moral e à revelia das informações de quais seriam os verdadeiros motivos para a existência dos campos de concentração só põem em reflexão o terrível nó em que se encontram as pessoas que por um motivo ou outro vivem alheias à informação, um grande tema a ser discutido nos dias de hoje.

Escrevendo um estalo

E aproveitando a insônia, conto do convite feito pelo amigo Pedro Piccoli do Estalos de Cinema pra que eu escrevesse um texto sobre o filme O Leitor que é estréia da semana e um dos destaques das indicações ao Oscar, concorrendo a Melhor Filme, Atriz (Kate Winslet), Diretor (Stephen Daldry), Roteiro Adaptado e Fotografia (Chris Menges and Roger Deakins) 

Pra ler o estalo é só clicar na foto:

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Pedro, agora é tua vez de aparecer aqui pelo Cine Orly ;P

Oscar 09: Redescobrindo a América

 

Você pode até dizer que eu to forçando a barra ou inventando, mas vale a pena assistir alguns dos filmes hollywoodianos que estão concorrendo ao Oscar desse ano com mais do que um olhar cinéfilo. Juntando algumas pontas soltas aqui e ali, vale a pena pensar em Foi Apenas Um Sonho, Gran Torino, e Dúvida como peças num painel que revisita alguns fundamentos da cultura norte-americana, principalmente no que diz respeito a relação dos norte-americanos com eles mesmos e com os estrangeiros.

Film Review Gran Torino

No topo do painel coloquemos Gran Torino, filme de Clint Eastwood que conta a história de um veterano da guerra da Coréia, morador do mesmo bairro há algumas décadas, pouco afeito à religião e que trabalhou durante 50 anos numa fábrica da Ford. A ação ocorre em torno de sua incompreensão a respeito do lugar que o mundo se transformou enquanto ele criava os filhos e montava carros. Tomado por preconceitos arraigados numa moral patriarcal e ultranacionalista ele precisará recriar as suas relações com o mundo ‘exterior à sua propriedade’ após a morte da esposa. O mais interessante é que o personagem interpretado e dirigido pelo próprio Eastwood consegue manter-se fiel aos seus valores e aprender algumas lições, além de servir como um avô que faz a ponte entre um mundo de décadas passadas com a realidade dos jovens de hoje, explicando um pouco sobre o humor, a amizade e o respeito à moda americana. Perceba a relação que o roteiro cria na referência do bairro suburbano como um lugar de conflitos entre imigrantes, latinos, negros e brancos, todos vivendo num clima de tensão confusa e generalizada tornando desastrosos os relacionamentos, onde a negação do outro está fortemente relacionado à sobrevivência. 

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Neste ponto agregamos ao painel o filme Dúvida. Dirigido por John Patrick Shanley, o filme é a transposição de uma peça teatral homônima também escrita por ele. A história se passa numa escola católica do Bronx/Nova Iorque onde a intolerância e a falta de abertura para diálogos sem preconceitos alimentados pela Irmã Aloysius (Meryl Streep) gera um processo de caça a um padre (interpretado por Phillip Seymour Hoffma). Baseada apenas em sua própria consciência e interpretação de fatos conhecidos pela metade, a irmã julga o padre por um suposto abuso a um aluno negro recém-chegado à escola. Sem medir esforços para provar o incidente e também apegada a idéia de não voltar atrás ou reconhecer-se errada, a freira extrapola os seus próprios limites de moralidade. Um bom ponto do filme é que a dúvida permanece sem resposta mesmo depois dos créditos.

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Foi Apenas Um Sonho fica então na base do nosso painel e trata o american way of life ainda em sua fase de gestação. O diretor Sam Medes que já havia falado desse sonho americano em sua fase decadente com o bonito Beleza Americana, dirige agora a própria esposa, Kate Winslet, que junto com Leonardo Di Caprio forma o casal Wheeler. Jovens, bonitos e ainda apaixonados os dois são admirados pela vizinhança como símbolo da vitória desse modelo familiar aparentemente perfeito e recém-nascido. Winslet se sai muito bem no papel da esposa cujo brilho de viver vai se apagando com o passar das cenas. Mas o melhor papel fica com Michael Shannon: o filho da vizinha que acaba de deixar uma instituição psiquiátrica é o único que se demonstra furioso diante das encenações mentirosas de felicidade e fala abertamente sobre a hipocrisia que resguarda a verdadeira realidade dessas relações escondida sob os móveis e as roupas impecáveis.

Parece então que os estúdios resolveram apostar em filmes que tocam essas delicadas questões através de várias leituras possíveis, dando assim espaços para reflexões mais redondas e não tão superficiais. Alguns dizem ser essa uma tentativa dos americanos admitirem suas falhas e pedirem desculpas, como num julgamento sem juízes. Prefiro pensar que eles finalmente resolveram mostra-se humanos e não mais super-heróis.