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A Família Savage (The Savages, 2007)

Atualmente alguns filmes têm se apoiado numa proximidade do real, desglamourizando a vida, o que cinematograficamente falando é muito comum em filmes norte-americanos. E televisivamente falando, na tv globo também.

A Família Savage é um desses filmes.

Pra ler uma crítica sobre os Savage escrita pela equipe-do-eu-sozinho, é só clicar na imagem abaixo:

the savages

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Juno, 2007

Um breve comentário sobre, já que a febre-Juno talvez já tenha passado:

Li várias opiniões antes de assistir ao filme. Alguns o comparavam ao Fabuloso Destino de Amélie Poulain pela sensibilidade da trama e pelos tons quentes utilizados na fotografia. Outros ligavam-no ao Pequena Miss Sunshine, que dentro do universo fílmico norte-americano, guardam alguma relação tendo sido – cada um em seu ano de produção – o filme independente que chamou a atenção da Academia e concorreu a algumas estatuetas, alcançando um degrau acima do que tinham proposto a si mesmos.

Fazendo uma piada, se compararmos as sensiblidades de Amélie e Juno, a personagem de Ellen Page ganha o troféu caminhoneira, o que dentro da trama é válido já que ela parece ter optado por essa máscara de durona e agora precisa levar adiante a interpretação. Quanto às comparações com a história da viagem da família Hoover ao concurso de Miss, o que os liga é apenas esse vínculo de serem filmes de orçamento mais baixo e que foram muito bem citados mundo a fora.

Fico me perguntando o que foi que perdi desse filme que em quase nada me chamou atenção. O universo de uma adolescente mais madura que o normal e também tão adolescente quanto qualquer outra que se apaixona por seu melhor amigo e engravida. E ao descobrir, pensa no aborto e logo descarta a possibilidade, decicindo-se por doar o bebê ao que ninguém se opõe e todos apoiam. Então ela vive aqueles nove meses de espera, escolhe um casal que ela julga perfeito, passa por ultrassons, mudanças inevitáveis do corpo e do humor, um flerte com o aspirante a pai do bebê e algumas decepções com o gênero humano.

O final é anti-convencional apenas se levarmos em conta o que é comum em comédias românticas adolescentes feitas nesses moldes. A interpretação de Page segue a mesma linha de sua personagem em MeninaMá.Com: o humor ácido sob o rostinho fofo. Mas talvez a indicação dela tenha acontecido por motivos como o gosto popular (que muitos atribuem como uma tentativa de corrigir erros do passado recente quando a Academia não deu o devido valor às interpretações de Brockeback Mountain) ou ainda porque como já dissemos antes, bons papéis femininos andam em falta, então…

Tem também o apelo pop-popular da roteirista Diablo Cody, que com seu passado de stripper, chamou a atenção por ter escrito um roteiro. E ainda ganhou o Oscar de roteiro original e recebeu vários elogios sobre como seu texto é ‘esperto’ e ‘antenado’ e ‘cheio de referências à cultura pop’.

Enfim, tudo bem, uma história que distraí, uma personagem que cativa, muitas cores e uma trilha bem escolhida são os seus melhores atributos, mas nada suficientemente grande e brilhante a ponto de tantas indicações.

Se você quiser me explicar melhor e me mostrar algo que eu não vi, fique à vontade!

There Will Be Blood, 2007

Um estudo de personagem muito bem amparado pela direção de P.T. Anderson e coroado pela atuação de Daniel Day-Lewis. A música de Johnny Greenwood surpreende pela qualidade irrefutável.

O caminho que fiz para chegar a assistir Sangue Negro foi diferente do que costumo fazer. Ao saber, meio sem querer, que Johnny Greenwood foi o responsável pela trilha do filme, a primeira coisa que fiz foi tentar escutá-la, afinal, sou fã do Radiohead e lembro muito bem do meu espanto ao ouvir The Bends e logo em seguida um susto maior ainda com Ok Computer. Fiquei me perguntando se as músicas de um filme que se passa no começo do século XX em uma sociedade norte-americana que ainda engatinhava na busca por seu caminho como potência mundial soariam tão surpreendentes e inovadoras como a maioria das músicas feitas pela banda de Greenwood. Muito melhor foi a surpresa, pois a música de Sangue Negro além de surpreender, espanta, alegra, comove e desorienta de tão ‘personagem’ que é dentro da trama. Impossível não notar. Que Greenwood trilhe outras vezes por esse terreno, aliás, o Festival de Berlim concedeu a essa trilha o prêmio de contribuição artística e isso não foi à toa.

Cheguei ao cinema ansiosa como todos os outros pelo novo filme de Paul Thomas Anderson. Entre meus filmes prediletos Boogie Nights e Magnólia possuem um lugar destacado e apesar de tudo, não entre os meus 10 mais. Os filmes são muito bons com seus personagens e cenas inesquecíveis, mas uma crítica que faço ao cinema de Anderson (e, por favor, não me apredejem em praça pública!) é quanto a seus roteiros. Seus personagens costumam ser marcantes, mas as histórias que ele conta não conseguem me mostrar claramente o objetivo real pelo qual são contadas. E isso não se deve as suas saídas nonsense e anti-convencionais (estratégias que se bem empregadas são as que mais me agradam num filme) e sim porque às vezes elas parecem carecer de recheios mais vibrantes ou viradas mais instigantes, o que acaba deixando a ação muito constante em filmes que costumam ultrapassar às 2 horas de duração.

No caso em questão, Sangue Negro demonstra a maturidade do diretor que apoiado pelo romance Oil de Upton Sinclair (escrito em 1927) desenvolveu um roteiro onde as questões que citei acima quase não me chatearam. Quase, veja bem. Em tempos e comparações com o redondo filme dos Irmãos Coen, qualquer meio ponto a menos em um dos quesitos prejudica o andamento do desfile.

É preciso dizer, no entanto, que Anderson proporcionou o surgimento de um grande personagem, Daniel Plainview, e mostra vários anos e situações na vida de um homem que consegue chegar ao final da trama sustentando o seu inquebrantável caráter, e que não guarda nenhuma boa esperança para o futuro dos seres humanos. Daniel Day-Lewis é conhecido pelo talento de alguém que interpretou o paralítico de Meu Pé Esquerdo e que há bastante tempo não ganhava um papel tão destacado quanto esse.

É quase possível imaginar a existência de um homem como Plainview emergindo na corrida pelo ouro negro. Seus trejeitos e verdades são as de um homem que viveu a realidade das minas de ouro e prata, daquele ambiente pedregoso e seco onde não se pode confiar em muita gente, já que o que está em jogo é dinheiro, e o dinheiro naquela época já era o deus que é hoje. É fácil perceber seu desapego com os seres humanos – inclusive com ele próprio – que descobriu que acumular riquezas e prestígio é tão divertido quanto jogar Banco Imobiliário, com o bônus de que os papéis desse jogo podem ser trocados por muitas coisas interessantes e não apenas casinhas de plástico. É como se ele tivesse encontrado uma razão para continuar vivo e nada mais.

Um fato que marca o início da relação entre Plainview e o petróleo é a morte de um companheiro de trabalho seu exatamente no momento em que eles descobrem uma jazida de óleo, e que deixa de herança para ele uma criança. O garoto é o próprio símbolo dessa relação que nasce, assim como servirá para simbolizar uma morte posterior. E é nítido o descaso dele quanto à situação do órfão logo na primeira cena entre os dois para, depois de uma passagem de tempo, vermos H.W. (o garoto) sendo exibido como sócio da companhia de extração de petróleo do pai, o próprio Plainview. De qualquer forma, acredito que o amor que ele demonstra pelo filho tenha sido sincero como a tentativa de acreditar que amar outro ser humano era possível. Mas não o suficiente para deixar os negócios desandarem quando o menino fica doente (e esta cena, a do acidente que acontece a H.W., merece destaque tanto pela cena em si, quanto pela música que cresce de uma maneira anti-convencional bem neste momento.) Destaque merece ser creditado a atuação de Dillon Freasier em sua estréia, como o companheiro mirim de Daniel Plainview.

Outro destaque é Paul Dano, por quem eu ‘me apaixonei’ em Pequena Miss Sunshine, pois aquela mudez do personagem Dwayne, quebrada pelo grito, me fez chorar. E eu estava ansiosa por um novo papel, algo maior. E aqui ele luta – literalmente – com o leão Daniel Day-Lewis. E luta de igual pra igual, apesar de perder no final. Mas ali quem perdeu foi o pastor Eli Sunday e não ele, o ator. E ele ainda interpreta dois papéis. A cena que eu destacaria como o ápice do personagem de Dano é a da conversão religiosa de Plainview, em que depois de caçoar do pastor ele se vê obrigado a aceitar publicamente aquela benção e aquele deus, não sem algum sarcasmo e uns tabefes.

Talvez fosse preciso citar a sinopse do filme, o que ocorre de praxe numa crítica. Mas se você chegou até aqui é porque deve ter passado por outros lugares antes, então, para ler a sinopse clique aqui.

As considerações finais sobre Sangue Negro começam com a repetição: o filme impressiona em vários pontos e a atuação/construção do personagem foco das ações é a força maior e a vitória desse filme. Sem dúvida um daqueles personagens que ficarão marcados e Daniel Day-Lewis mais uma vez confirmou seu talento. Paul Thomas Anderson conduziu um trabalho de porte e que impressiona, mas cuja história ainda me pareceu carente de um ritmo mais atraente, e acaba deixando que você voe da sala escura para outro lugar e perca bons pedaços do filme. Em contrapartida, Greenwood trouxe sua contribuição que se constituiu justamente no elemento que te traz de volta do vôo, porque uma música como aquela não pode ser tocada sem que algo grandioso ou maligno esteja surgindo bem na sua frente. E a impressão que fica no fim é a de que Daniel Plainview está certo: é melhor apertar o botão de boot do mundo, porque ninguém parece conseguir escapar ao cheiro sujo da lama da manguetown.

Elizabeth: The Golden Age, 2007

A força de uma Elizabeth I em forma de Cate Blanchet, ou o contrário?

A partir do olhar de Shekhar Kapur temos montado o quebra – cabeças da vida de Elizabeth I, Rainha da Inglaterra. De início, em seus primeiros anos de reinado e a vivacidade da juventude em Elizabeth (1998). E agora, em Elizabeth: A Era de Ouro, vemos a rainha confirmando a abdicação de sua vida pessoal em detrimento do comando de seu país, lutando contra várias questões de uma única tacada: As críticas quanto à falta de um herdeiro vindo dela; a negação de mais um amor; intrigas que pretendem destituí-la de seu trono e o ataque armado que a Espanha promove contra a Inglaterra, em nome de diferenças religiosas.

Muito pano para mangas deve ter rendido um ritmo interessante à ação do filme, certo? Nem tão certo assim. Em meio a essa possibilidade de tramas, a dupla de roteiristas (William Nicholson e Michael Hirst) concentrou o foco das atenções nas questões de ordem pessoal da personagem, o que deve ser realmente irresistível tendo ela sido considerada por anos como filha ilegítima de seu pai, Henrique VIII, e tendo assumido um trono de tal porte sob uma grande conturbação política e também religiosa, e ainda assim tendo gravado seu nome na história como aquela que adjetivou uma era – a elizabetana – onde as artes floresceram a ponto de darem luz a um nome como William Shakespeare. Mas a que preço construiu-se essa figura?

Essa é a linha que une os dois filmes de Kapur: encontrar a humanidade na figura pétrea de uma rainha que tantos conhecem de longe e poucos realmente puderam ver de perto. Tanto que neste segundo filme são vários os momentos em que a câmera se posiciona por detrás de objetos e colunas, como se esgueirando para poder conhecer a verdade atrás das deslumbrantes roupas e perucas da Rainha Virgem. Apesar das boas intenções desta solução – que demonstra a delicadeza com que se quer mostrar o lado pessoal da personagem -, sem exageros ou por causa deles, é possível ficar tonto dentro da sala escura. Principalmente aos que, como eu, possuem astigmatismo.

Apesar da fragilidade do argumento acima, é preciso deixar claro que mesmo com todas as boas intenções e os clichês irresistíveis, o filme demonstra falhas tão contundentes quanto o talento de Cate Blanchet, que muito acertadamente conseguiu ser ‘pescada’ de dentro deste caldeirão para ganhar sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Atriz pela interpretação de uma mesma personagem, o que é no mínimo curioso.

Clichês irresistíveis? Pode ser. Afinal de contas somos cúmplices do primeiro beijo de Elizabeth e essas coisas são clichês e são irresistíveis na vida de qualquer um. Mas fazer uma tomada onde, depois de uma batalha entre navios espanhóis e ingleses, vemos um crucifixo afundar no mar como metáfora para a derrota do catolicismo, é duro de engolir.

Um espaço para a sinopse: Em 1585 a Espanha desponta como o mais poderoso país europeu e promove guerras políticas sob o falso motivo de incompatibilidade religiosa a todos os países não-católicos do continente, e a Inglaterra governada por Elizabeth I é o único país a se opor a isso, conservando-se protestante e tolerando a existência de católicos em seu território. Mary Stuart (Samantha Morton), rainha da Escócia, estabelece uma aliança com Felipe II, rei da Espanha (Jordi Mollá) para destituir Elizabeth do poder. Em meio a isso, a rainha inglesa vê-se obrigada a deixar-se cortejar por uma série de nobres pretendentes, posto que seu trono mantém-se sempre ameaçado devido a falta de sucessores. Mas quem toca seu coração é o conhecido aventureiro inglês Sir Walter Raleigh (Clive Owen). Em troca da constante permanência de Raleigh na corte, a Rainha Virgem passa a incentivar sua ama mais querida, Elizabeth como ela (Abbie Cornish), a aproximar-se do aventureiro, e passa a viver através da ama esse romance proibido.

O que também deixa a desejar nesta película é a abordagem da guerra, que juntamente com o romance mal vivido entre a Rainha e Raleigh são os focos principais da trama, um momento pelo qual se aguarda. E quando chega é um episódio contado aos solavancos e sem o impacto que deveria ter. Bem como a trama da traição de Mary Stuart e da oposição que vemos sendo montada por alguns populares ao governo da Rainha, que de tão sutilmente demonstradas, acabam nos deixando sem entender bem os meandros da questão.

Aplausos existem também, principalmente à interpretação de Blanchet, seja pela impostação de sua voz nos momentos em que, sendo rainha, a própria rainha mais parecia uma atriz interpretando um papel que conhecia bem, como a própria Cate em sua interpretação, parecia com uma rainha que ela mesma conheceu muito bem. Vale ressaltar também a presença sempre forte de Samantha Morton, antagonista à altura de qualquer interpretação ou reinado. Pena que tão pouco explorada dentro da trama.

No mais, é fato e precisa ser dito: mais um filme de temas palacianos e de guerras clássicas, sem nada a acrescentar aos seus pares do gênero, à exceção dela, a rainha Cate Blanchet.

irmãos coen X p. t. anderson

quem acompanha notícias sobre cinema deve ter visto a lista de indicados ao oscar/2008, e percebeu também que entre os indicados No Country For Old Men (Onde os Fracos Não Têm Vez) e There Will Be Blood (Sangue Negro), o primeiro dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen e o segundo por Paul Thomas Anderson são os grandes concorrentes pelas estatuetas mais importantes.

o Cine Orly teve a honra de já ter assistido a ambos e, confesso, ainda bem que não sou eu quem terá que decidir entre um e outro.

não sei se a grande vantagem dos Coen é serem dois, mas se levarmos em conta esse critério, Anderson – por ser um só – deveria ganhar. acontece que o filme dos irmãos me parece muito mais coeso, como um bloco único em que nada nem ninguém consegue destacar-se sozinho, enquanto que no filme de Paul Thomas existe Daniel Day-Lewis

além disso, e na minha singela opinião, No Country For Old Men tem a seu favor o conjunto das interpretações, com talvez um pequeno destaque a Javier Bardem, cujo papel muitos já anunciam como forte candidato a entrar no hall dos inesquecíveis vilões do cinema. além da história, que nos prende do começo ao fim devido ao suspense.

There Will Be Blood por sua vez coroa a atuação de Day-Lewis com a ótima trilha sonora de Jonny Greenwood que é realmente impressionante pela vivacidade que dá às cenas. porém, os personagens são o grande trufo do filme, enquanto sua história poderia ser melhor.

(suspiro)

os dois filmes são desses que ficam em nós mesmo depois de sairmos da sala. então, que vença aquele que vencer, porque  ambos são os melhores.