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Arquivo para personagem

Isto não é uma crítica/O Leitor

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Mesmo já tendo escrito sobre este filme, faltava falar um pouco sobre o impacto pessoal de assisti-lo, aqui da cadeira do espectador comum, coisa que sabemos (ou não) contradiz um pouco as expectativas de um texto com qualidades jornalísticas imparciais.  Entonces, deixo avisado que se você chegou até aqui em busca de informações sobre a sinopse ou mesmo sem vontade de ler spoilers, não continue. Não quero estragar as surpresas de ninguém…

A vontade de ler o romance me ocorreu mais pelo interesse de entender melhor a personagem interpretada por Kate Winslet, Hannah. As nuances da personagem a humanizam, para o melhor e o pior disso, pois a simplicidade de seu caráter pode ser percebido não apenas na identificação de seu analfabetismo, mas em suas roupas e na naturalidade com que ela conduz todo o relacionamento com o garoto sem grandes jogos ou afetações.

A sensibilidade de Hannah fica exposta na cena em que ela se emociona ao ver um coral de crianças cantar numa igreja (lugar que depois saberemos ter uma boa carga dramática na trama) ou na sequência das cenas em que acompanham0s sua reação às leituras do garoto. E essa mesma sensibilidade contrasta com os modos austeros e a disciplina a que ela se impõem, no cuidado com os pequenos detalhes da vida (vide a cena em que ela dá um banho no personagem de David Kross).

Por tudo isso é possível compreender com que naturalidade Hannah aceitou o trabalho nos campos e com que sentimento de dever e proteção ela cuidou dos detentos,  e mesmo com que racionalidade escolhia quem ficava e quem ia para morrer em Auschwitz. Nada disso tira o peso de sua culpa, mas complexifica as atitudes tomadas em momentos de escolhas difícieis como esse, já que apesar de iletrada ela deveria entender bem o drama da guerra que via diante de si.  As escolhas tomadas como certas dentro de sua própria moral e à revelia das informações de quais seriam os verdadeiros motivos para a existência dos campos de concentração só põem em reflexão o terrível nó em que se encontram as pessoas que por um motivo ou outro vivem alheias à informação, um grande tema a ser discutido nos dias de hoje.

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Santiago (2007)

Embalsamando Santiago. Expondo João.

dançando

O que começou como um documentário comum – apesar de todo o preciosismo evidente na fotografia ao modo Ozu –, acabou transformando-se em um estudo sobre o gênero, partindo da análise da relação de poder existente entre documentador e documentado (sobre a qual nunca se fala, mas sempre existe), e das implicações que essa relação produz, entre aquilo que fica como produto final e aquilo que poderia ter sido conduzido de outra maneira.

João Moreira Salles percebeu a tempo que sua investigação em Santiago tinha algo fora do lugar, e deixou de lado o material de gravações feitas durante alguns dias no então atual lar do homem que por 30 anos cuidou de sua família, na casa que ele mesmo relacionava à idéia de um piccolo castelo, com sua dinastia de embaixadores e presidentes que completavam a idealização de Santiago sobre a vida dos grandes homens e mulheres da história. Histórias, aliás, que o acompanhavam em suas mais de 30 mil páginas escritas sobre os mais diversos e improváveis personagens.

30.000 pg

O cineasta vai ao encontro do mordomo que povoa as lembranças de sua infância na busca de reabrir as portas da antiga casa em que viveu boa parte da vida, no tempo em que celebravam o dia dos seus anos e ninguém estava morto. Aliás, estar vivo e com a mente ainda tão prodigiosa é algo que parece perturbar Santiago, sempre fazendo questão de mencionar que quase todos aqueles que cita em suas memórias, poemas e anotações já estão mortos, inclusive o peru da ceia.

Pelo inusitado de sua conduta é possível entender o interesse de embalsamar Santiago em um filme e assim mostrá-lo como espécime humano que sempre instigará curiosidade, mas não é bem assim que se conduz a ação num primeiro momento: o diretor tenta arrancar lembranças que ele talvez imagine não fazerem parte da vida do mordomo e sim da sua, como se fosse preciso registrar aquilo que estava guardado na memória do outro para compor a sua própria história. E talvez por isso seja mais fácil entender a narração em off, na voz do irmão, para que o objeto principal do filme (Santiago ou outra coisa?) e seu realizador guardem entre si uma distância sadia.

E é justamente essa distância que João Moreira Salles interpreta como o maior erro do filme que ele tentou fazer em 92 – ano das filmagens – e ao qual só conseguiu dar novo sentido em 2005: a distância da relação patrão e empregado o impediu de enxergar mais de perto aquele homem que não existia apenas como apoio às suas memórias, mas que possuía a sua própria história, tão curiosa e plena quanto à da família de João.

O que chama atenção neste documentário é perceber que por detrás dos motivos que levaram o diretor a produzi-lo existia uma figura forte e cativante, que antes de ser um homem incomum, deslocado no tempo e no espaço, e tratado em alguns momentos como atração num freak show elegante, ele é o próprio personagem de si mesmo, e não apenas um meio através do qual poderia-se consolar de perdas e resgatar algumas histórias.

E Moreira Salles percebeu isso um pouco tarde, pois quando retornou ao filme, Santiago já não estava mais aqui. E ainda assim foi possível fazer dele mais do que uma peça perdida em uma das várias salas da Casa da Gávea, hoje um museu.

Nas tomadas repetidas que o filme faz questão de mostrar (exemplificando assim os erros e esperando redimi-los ao apontá-los) percebemos o quanto da espontaneidade na ‘interpretação’ de Santiago foi perdida e o quão mecânicas são as relações entre câmera, produção e interpretação, necessárias para a composição daquele objetivo primordial da história cujo embrião remete à idéia no papel, à primeira idéia sobre o filme, que nem sempre é o produto final. Salles nos ajuda a entender o mecanismo do documentário ao mesmo tempo em que desmascara as mediações necessárias à sua construção, e aquela idealização do purismo documental se perde.

Não se encantar com Santiago é coisa difícil e o que me passou pela cabeça foi imaginar o menino João Moreira Salles envolvido com tantas figuras interessantes desde cedo, e ainda margeado por alguém como esse mordomo. Esse tão específico senhor que encontramos em seu pequeno apartamento, muito diferente dos tempos de outrora e ainda tão mais ele do que antigamente, já que o tempo conseguiu refinar e resguardar muito do que o personagem Santiago representava para o menino João. Um argentino que podia conversar num espanhol meio abrasileirado para terminar uma história sobre a Itália falando italiano, sem com isso soar blasé ou proposital. Porque seu particular catálogo da história humana e suas dinastias – sejam elas indígenas ou cinematográficas – era escrito da mesma forma, alternando idiomas, e foi entregue a João como herança. Um pequeno tesouro.

Que infelicidade o diretor não conseguir ouvir o documentado, e bem na hora em que ele reconheceu um bom momento para falar daquilo que o movimentava a ser como era… Ainda se consegue ouvir a palavra maldito… Mas já era tarde, a câmera estava desligada e os planos eram outros.

O que conforta, ao menos ao que parece, é pensar que Moreira Salles tenha ficado tão chateado com ele mesmo quanto nós.

Santiago